Sonhos Platônicos

Quarta-feira, Julho 23, 2008

Inspiração

Faz muito tempo que não apareço por aqui, faz muito tempo que não escrevo uma linha. A inspiração fugiu, deu uma sumidinha em algum canto do meu cérebro ou da minha vida.
Há duas semanas reli alguns textos escritos por mim e pelos outro companheiros do blog, bateu uma saudade, um aperto e algumas muitas lágrimas rolaram pelo meu rosto, a vontade de escrever então cresceu, ficou bem grandinha a ponto de explodir, mas e a inspiração, cadê?
Conversando com uma amiga, Cristina Casagrande, sobre isso ela sugeriu que eu escrevesse sobre o fato de não conseguir escrever e aqui estou.

Os dias passam e eu fico matutando frases, pensando poesia e refletindo música, as horas vão fugindo e eu não consigo construir uma frase sequer. Ás vezes acredito que preciso de dias bastantes turbulentos e tristes, para quem sabe algo brotar.

Esses dias aparecem, apareceram e essas frases, contruções gramaticais, não surgiram... Restou somente a dúvida: O que aconteceu com essa cabeça pensante? Para onde foi a escritorazinha sonhadora que aqui morava???

Mais um enigma para contar história.

Enquanto isso, passo horas, momentos deliciosos e ricos, a desfrutar da companhia de um senhoriznho, bastante simpático e único, que descreveu de uma maneira cativante e curiosa o nosso sertão, senhouro Guimarães Rosa, em seu clássico, Grande Sertão Veredas. Tenho aprendido a degustar um livro, a ler cada frase com paciência, sem ter pressa para chegar ao fim.
Espero que ao final desse livro já tenha eu voltado a escrever frases soltas, desconexas e sonhadoras aqui nesse blog amigo.

NUNCA SE ESQUEÇA


Domingo, Outubro 21, 2007

Superficialidade

Ser superficial não a incomodava, sorrir para todos, fazer gracinhas de simpatia, tratar a todos como os "melhores amigos" estava listado na sua rotina.
Ser normal para ela não era suficiente, não existia tristeza, muito menos profundidade.
Um dia, num diálogo sutil, perguntaram:
- Você já perguntou pra Loira se ela estábem???
Após instantes de reflexão, descobrira que nunca tinha feito essa pergunta a ninguém, nem a ela mesma.

Pode até ser mais fácil, ser simpática para todos, mas viver em estados de amizade nada profundos, não leva a nada. Rir de tudo e para todos, é falta de humanidade dentro de si. É falta de amor.

Ela virou a esquina, deixou escorrer uma lágrima e voltou a sorrir.

A Loira, para aqueles curiosos, sofre de perdas, de indecisões, mas infelizmente seus amigos não têm tempo para ouví-la, decifrá-la ou quem sabe dar abraços, apenas sorriem.

Domingo, Junho 24, 2007

Em algum lugar distante





Desconstrução.
Processo fudido de desconstrução. Um turbilhão de pensamentos ora desconexos, ora fazendo um sentido absurdo.
Muitas vezes não reconheço aquele que está do outro lado do espelho. Mil faces por trás daquele reflexo de um rosto cansado.
A cabeça não para, o corpo já não acompanha, mais uma noite mal dormida, inquietude, olhos abertos, o barulho do relógio é enlouquecedor.
O pensamento longe, bem longe, perdido no abraço apertado, naquele beijo apressado e na despedida.
Doce despedida...mais ainda sim, despedida.
Falta, falta alguma coisa.
A cabeça a mil, os olhos fechando.
Fechando...
E o pensamento longe.
Bem longe...

Sexta-feira, Junho 08, 2007

outros dias, outras horas



uma xícara de café,
entre um cigarro e outro
e entre as incertezas

um menino com asas,
sonha
sonhos de papel, jogados ao vento
revira e volta
busca,
a sensação de coisas únicas

minimalismo,
leveza
e, um sorriso


aflora....







Segunda-feira, Abril 30, 2007

Incompleto...

Tivera na vida poucas desilusões que valessem à pena ser relembradas. Poucas vezes sentira-se mal de verdade por algum motivo externo a si mesmo. Poucas vezes sentira-se só, como que abandonado num mundo estranho. Não sabia dizer, caso perguntado, o significado concreto da palavra solidão. Lia livros, ouvia músicas. Assistia a filmes que falavam do amor, da saudade, da desilusão que é confiar e entregar-se a alguém. Achava tudo muito bonito, muito triste, mas não entendia o que aquilo significava realmente. Acreditava que na vida era dado ao homem escolher amar, ou não amar. Confiar ou não confiar. Entendia que, a partir do momento em que havia a escolha, havia também a certeza de que sofrer por alguém era uma mera questão de falta de tato. Falta de sabedoria.

Orgulhava-se de ser sábio, de ter o total controle sobre suas emoções. Sua vida lhe pertencia e a ele só. Jamais acordara à noite sentido a necessidade de alguém. Era inteiramente alto suficiente e sentia-se bem por isso. Tinha o coração forte como o aço e sorria frente ao espelho quando via em seus olhos a certeza de que jamais veria sua vida contada em uma telenovela, um livro, uma música qualquer. Não queria ser um exemplo. Queria ser único, diferente de tudo e todos.

A última vez que o vi, a alguns anos atrás, estávamos os dois sentados numa mesa de bar. Frente a frente, conversávamos banalidades e ele me falava, não sem certo brilho nos olhos, que se descobrira um homem completo por não ter a mínima vontade de ser algo além daquilo que aprendera a ser com o passar dos anos. Tinha-se em alta conta.

A certa altura da conversa me perguntou como estava, o que eu vinha fazendo da minha vida. Disse-lhe que estava bem, que a vida era ótima apesar dos desencontros que a povoavam. Ele riu. Sabia de que tipos de desencontros eu falava e isso, mais uma vez, só o fez ter ainda mais certeza de que estava certo. Contos de amor são para homens fracos, incompletos. Zombou de mim dizendo que um dia eu descobriria o quão idiota havia sido e que, então, seria tarde demais para qualquer tentativa de mudança. Eu me calei.

A conversa acabou aí. Ficamos ainda alguns minutos calados, olhando as pessoas que passavam ao redor: homens, mulheres, casais. As pessoas não entendiam que não se deve confiar uns nos outros. Não sabiam do mal que provém do coração e das peças que esse pedaço maldito de si mesmas pregava. Não conheciam o verdadeiro perigo por trás de um simples olhar delicado, uma palavra de carinho, um gesto de saudade. Amavam-se perigosamente.

Pagamos a conta, nos despedimos e saímos. Lembro-me de observá-lo enquanto ia embora: Um homem completo, forte, orgulhoso. Uma pedra de gelo em forma humana. Caminhei para casa me sentindo incompleto, fraco. Feliz.

Domingo, Abril 22, 2007

Conto da Separação..

O céu pintara-se de uma mistura de cores quentes enquanto se despediam. Ela não sabia quando o veria de novo e isso a afligia profundamente. Tratou de aproveitar cada segundo daquela despedida como se um encontro como aquele jamais acontecesse de novo. Reparou em tudo: No brilho dos olhos dele, o calor do seu corpo, o perfume que usava, o céu, as pessoas que passavam ao redor, os carros na rua, tudo enfim. Considerou seriamente a possibilidade de visitar aquele instante de novo, muitas vezes, quando num futuro talvez não muito distante um cientista louco qualquer encontrasse os caminhos secretos de voltar-se no tempo.

Terminados os carinhos de adeus e os gestos tristes de até logo, afastaram-se. Contando cinco passos exatos e já não resistindo mais, parou. Queria ser forte, mas o punhal que carregava no peito ameaçava entrar fundo, ferindo mortalmente um coração rendido de amor. Vagarosamente virou-se. Vinte passos à frente talvez, cercado por densa névoa, divisou seu ponto de luz que se ia. Esperou ali parada. Queria ver-lhe voltar-se para ela uma última vez. Sentir o calor aconchegante do seu sorriso. A luz apagou-se. Ele se foi. Nem deu-se conta do feixe úmido que cortou-lhe a face.

Momentos antes, não muito longe dali, uma cena semelhante acontecia: ele olhava nos olhos dela com carinho, mas sentia dentro de si que algo estava errado. Sentia-se violando alguma lei antiga ao tocar o seu rosto, beijar os seus lábios. Desejou subitamente entender de onde vinha esse sentimento e descobriu-se incapaz de responder a suas próprias dúvidas.

Despediu-se dela e tudo que conseguiu sentir ao vê-la virar-lhe as costas foi uma dor estranha no coração. Ficou parado vendo-a distanciar-se e desejou mirar seus olhos uma última vez. Teve a certeza de que em um dia, num futuro possivelmente muito próximo, sentiria um arrependimento avassalador quando dessa tarde se lembrasse. Pensou não ser capaz de dar um único passo numa direção que não fosse a dela.

Viu-a desaparecer em meio à multidão e só então virou-se. Cinco passos adiante a mão no bolso direito da calça alcançou o telefone celular. O primeiro número na memória era o dela e ele teve de segurar-se para não chamá-la. Sentia-se um idiota por já sentir saudade de sua voz. Com esforço tirou a mão do bolso. Não queria despir-se dessa forma.

Caminham agora pela mesma rua. Ela, fones de ouvido ligados pensa em quando veria seu amor de novo. Ele, olhos no chão, conta os passos que o afastavam daquela que era dona de seus mais íntimos pensamentos. Param os dois no mesmo ponto e pegam exatamente o mesmo ônibus, sentando-se lado a lado, no mesmo banco. Ele lê um livro. Ela ouve música. Sentem-se sós, engolindo juntos sem o saber, o gosto amargo de não se ter o que se deseja.

Ele desce um ponto depois dela. Põe os pés em casa e pensa que um dia talvez encontrará alguém como ele. Talvez na rua, num ponto de ônibus, talvez no banco ao lado. Ela, sentada no sofá, os olhos vazios na televisão, inevitavelmente, pensa o mesmo.

Terça-feira, Abril 17, 2007

O aniversário!!!


Olhou no armário, as vinte e quatro velas estavam ali guardadas esperando o relógio dar as 24 horas, assim seria o momento de colocá-las no bolo e levar até a porta do quarto do aniversariante, antes de bater com um isqueiro ou caixa de fósforo acender vela por vela, bater na porta e entrar.
Luzes apagadas, voz tranqüila, quem é???
Parabéns pra você, nessa data querida, muitas felicidades, muitos anos de vida...
Assim a voz que carrega o bolo responde.
Tudo começa há vinte e quatro anos, em algum lugar de São Paulo no dia 18 de abril. No céu mais uma estrela nasce e na terra mais uma criança no mundo. Tudo faz sentido.
A noite linda com as estrelas mais que brilhantes e a lua bem redonda, toda gordinha. Na sua forma mais cheia, o show é todo para esse novo menino que chega a terra para trazer luz, vida, calma e sabedoria para aqueles que cruzarão sua vida.
A sua infância é graciosa, cheia de cores, sabores e travessuras...
A adolescência cheia de amigos, sementes de amizades e conhecidos, pensamentos povoados de sonhos (alguns possíveis outros um dia talvez).
Nessa época aí uma sementinha foi brotada, uma garota de sua sala um tanto falante, dentro do coraçãozinho dela fora plantada a semente da amizade cujo o nome era O Cover do Poeta e ali ficara adormecida por uns tempos...
Os anos se passaram, adquiriram amigos em comum e aquela sementinha, aos trancos e barrancos fora crescendo, crescendo, até formar uma plantinha bem bonitinha.
Esse amigos em comum foram essências para o crescimento, a Mery mocinha bem especial, daquelas maluquinhas, cheias de histórias engraçadas, foi o ingrediente principal, digamos que o adubo para a plantinha.
Juntos formavam um trio bem diferente, cada um com suas particularidades, qualidades e defeitos.
O Cover, rapaz estudioso, foi estudar engenharia no interior, o que também ajudou a crescer...
No fundo, bem no fundo, é difícil contar ou escrever sobre essa amizade.
O fato verdadeiro, é que esse menino é muito importante para a narradora da história.
É o amigo que chegou sem pedir licença para entrar, o critico que não tem medo de falar o que esta errado, o ombro que dá para chorar, o ser que apóia e acredita...
Enfim o AMIGO de verdade... Aquele que não se importa com sua conta bancária nem com as roupas que você está vestindo. Gosta é mesmo de estar ao lado seja pra dar aulas de matemática, ir no sacolão fazer compras de frutas para o Natal ou dar risadas e gritar no show do Los Hermanos...
Tem um ouvido bem paciente, pois olha que dessa dupla de amigas ele deve estar cansado de ouvir elas falarem sobre meninos, amores, paixões e suas encrencas.
Engenheiro trabalhador, expert em matemática, mas acreditem, quando digo que uma estrela no céu nasceu junto dele, para estar juntinho dele nas noites e para brilhar ali nas vitórias e nos dias não é de brincadeira.
Uma de suas paixões, a palavra, ler grandes escritores como Saramago, Garcia Márquez e Guimarães Rosa. Apaixonado por esses signos, essas letrinhas que juntas ajudam a gente se expressar, resolveu colocar no papel as histórias, pensamentos, poesias que vagueiam dentro de sua cabeça. Vale a pena conferir o modo que ele combina certas palavras, a forma que ele tempera com amor, alegria, ás vezes uma pitada de tristeza essas fábulas escritas em preto e branco.
Tanta coisa pra falar...
Uma das coisas que não me esqueço, dita por ele em uma das nossas conversas, fora mais ou menos isso, já peço desculpas caso esteja um tanto ou quase tudo errado: Não sei se gosto de realizar meus sonhos, gosto deles e realizá-los significa que eles já não estão mais ali no mundo dos sonhos...!!

Não sabes como isso me marcou...
Então digo. Sonhe, sonhe muito, hoje e sempre. Tenha os sonhos mais belos, impossíveis, necessários, mas não deixe de sonhar. É tão bom ver quando você realiza um deles, saber que agora eles saíram debaixo do travesseiro e estão voando.
Parabéns!! Parabéns!!!
A sua amizade é muito importante pra mim, meu melhor amigo, companheiro das risadas, das broncas, das escritas...
Desejo que as palavras saltem belamente dos seus pensamentos para o papel, que tudo o que você vier a escrever venha servir para algo e para alguém.
Desejo que seus objetivos sejam alcançados, que tenha a conta bancária necessária para sua necessidade e que tenhas sempre esse lindo coração.
Porque o ser humano fantástico você já é.
Um presente de Deus na minha vida.
Merece todas as bênçãos do Pai e sei que ELE te guiará para sempre.

Joyeux Anniverssaire Petit Ami...

Ele apaga as velhinhas, corta o bolo e faz o pedido, olhos fechados. Resta saber se ele se realizará. Se depender de mim, a resposta será sim.

http://gprime.net/flash.php/cakedance

Domingo, Abril 08, 2007

Relações..

Voltou? Sim, voltei. Porque? O que você ainda quer aqui? Não sei. Pensei em fazer um café, umas torradas. Sentar no sofá com você e assistir o jornal. Não entendo você, sinceramente. Porque? Vejamos.. Talvez pelo fato de que você, a menos de cinco minutos, saiu daqui me dizendo que não voltaria mais? É eu sei, pensei melhor. Acho que eu só precisava esfriar um pouco a cabeça. Esfriar a cabeça. Sei. A vai, não vai dizer que você levou realmente a sério tudo aquilo que eu te falei. E não era pra levar? Bem.. Não exatamente. Ah! Você sabe como eu sou. Às vezes acabo falando demais. É eu sei. Na verdade acho que você nunca sabe mesmo quando parar. Sabe, fico pensando se um dia você vai saber... Saber o que? Quando parar! Ah!...Não sei. Talvez. Não sei se “talvez” é a resposta que eu preciso ouvir. Ah pára com isso! Não precisa fazer todo esse melodrama. Um dia eu vou mudar... Não sei quando, mas vou! Eu tento pelo menos... Pelo menos... Me irrita essa tua certeza de que tentar já é o suficiente. Tentar não significa nada. Você tem que mudar! Efetivamente mudar! Não dá pra conversar com você! Só consegue ver o errado em mim. Você se acha um ser perfeito! Nunca pensa que talvez também tenha um monte de coisas a mudar, um monte de defeitos! Sim, eu sei que tenho. Muitos... O que me diferencia é que eu enxergo e admito meus defeitos. Você não... Ta certo! Você tem razão.. Você sempre tem razão. Quem sabe se você parasse de pensar em quem está certo ou errado sempre, a gente tivesse uma vida bem melhor. Mas acho que isso tudo é muito difícil. Você não entende nada. É, acho que não entendo mesmo. Nunca entendi e nunca vou entender. Desisto de tentar. Sabe.. Outro dia acordei de noite de um pesadelo horrível. Pesadelo? Sim.. Pesadelo, Sonho ruim.. Ta, ta bom, já entendi. O que tem? Sonhei que você ia embora e me deixava no carro, com a porta trancada. Eu gritava, batia no vidro e no entanto você não ouvia. Só ia embora. Não sei por que eu tinha tanto medo. O carro tava parado em algum lugar meio deserto, não sei. Meu medo era tão grande que quando acordei, senti que o quarto encolhia e me engolia. Tive que respirar fundo e fechar bem forte os olhos pra não gritar. Nossa e porque você não me chamou? Não sei. Não quis te acordar, incomodar teu sono. Nossa até parece. Você fala como se eu fosse um monstro! Não, não é a minha intenção. É justamente o contrário. Você podia me acordar.. Eu sabia que podia acordar você se precisasse e saber disso, me fez ter certeza de que o sonho era sonho, e que a realidade era outra coisa, totalmente diferente. Entende? Entendo... Odeio o jeito como você expõe seus argumentos... Café?

Quinta-feira, Abril 05, 2007

As Noites Nunca São Iguais


Um papel prestes a conceber
poesia
a prosa do papel com o poeta
o cheiro da noite,
convida o poeta
boemio
entorpecido
as noites nunca são iguais
mesmo que se mude apenas uma estrela
promessas a lua
a primeira madrugada
um beijo acolhedor
sob um céu estrelado
as estrelas nunca são iguais
as mãos unidas
o nascer do sol
o sol sempre nasce
as mãos unidas
sempre...

Sábado, Março 24, 2007

Meu Velho Vício...


Queria eu escrever algo diferente. Faz um tempo já que as palavras me somem da mente. Sempre que começo algo novo, elas fogem, se escondem. Brinco de pega com as palavras e elas sempre ganham. Acho que elas de antemão sabem onde nunca as iremos encontrar.

A vida, minha vida, tem me feito pensar em várias coisas novas. Vou caminhando pela rua e tudo o que vejo me desafia, me põe em cheque. Tenho vontade de escrever o mundo. Escrever pessoas, seus pensamentos, seus sonhos. Escrever a criança brincando na calçada, o motoqueiro que avança veloz por entre os carros, motoristas ao celular, malabaristas de semáforo. Quero entender seus sonhos, suas vontades, o que os motiva a serem o são, fazerem o que fazem. Entender. Ás vezes me parece que exagero ao querer mais do que me foi dado entender. Será?

Tenho vergonha de estar aqui a escrever sobre pensamentos meus de novo. Não é justo. Tantos assuntos realmente importantes desfilam ante meus olhos e eu aqui parado. Egoísta penso apenas em mim mesmo. Na verdade não é isso. Antes fosse. O que me atormenta é o meu velho vício de ser romântico. Ou talvez de querer sê-lo. Olho em volta e vejo tudo, mas o tudo é nada, não tem importância, quando penso que é sobre você que eu realmente queria escrever. Não sobre mim. Você só. Não tenho medo de admitir que você é o meu assunto preferido.

Mas também não é só isso. Queria eu poder pensar em você sem associar a sua imagem à minha. Queria aprender a imaginar que somos dois e dessa forma dar um basta a tantas (falsas?) esperanças. A gente sofre tanto e nunca aprende o que realmente importa.

Queria escrever algo diferente, mas pelo visto não consigo. Vivo sempre a mesma repetição de pensar e escrever você. Corro atrás das palavras e só encontro o seu nome em todos os cantos, esquinas, calçadas, semáforos. Isso é ruim? Estou errado? Talvez.

Me pergunto o que seria mais importante: Escrever o amor ou escrever o mundo. Ser ativista ou romancista? Quem estava mais certo: Shakespeare ou Che Guevara? O que realmente importa? Tento me decidir por um lado, mas não consigo. Às vezes o muro parece alto demais para ser transposto e acabo ficando em cima dele.

Termino meus textos assim: Desejando um dia aprender a escrever sobre o que realmente importa, imaginando que talvez nesse dia eu descubra que eu já sabia a resposta.

Quarta-feira, Março 07, 2007

A menina


Ela caminhava entre ruas arborizadas tranquilamente, seus pensamentos estavam bem longe dali, o percurso era o mesmo de todos os dias.
Sempre de cabeça baixa, com sua mochila preta nas costas e suas havaianas nos pés, que juntos a levavam para o seu pequeno mundo de fantasias.
Ela entrava após alguns minutos de caminhada em um prédio histórico, onde ali ela podia ser ela mesma, não precisa fingir que sabia algo ou que nada sabia, simplesmente vivia do jeito que sabia viver, falava quando necessário, em vários momentos se pegava com o pensamento longe.
Ali no prédido velho, todo adornado meio em estilo barroco, subia as escadas e se dirigia a sala 79-B, procurava a sua carteira estofada, deixava a mochila preta no chão e ali se sentava.
Passava horas ouvindo vozes especiais a dizer sobre os mais fantásticos assuntos que a cativava, um dia sobre política, outro sobre sociologia e assim por diante.
Um sentimento estranho de se explicar crescia nela e a menina não entendia o que estava acontecendo. Em certos momentos sentia que não era dona do seus pensamentos, era como outra pessoa estivesse ali por ela.
Suas idéias e seus ideias a cada dia ficavam mais verdadeiros e honestos. Ela crescia sem perceber, sem perceber a doçura e seu jeito de criança sapeca e cativante.
Os olhos brilhavam quando algo a encatava, podia ser uma palara, um gesto, especialmente os sorrisos, sim isso a levava para outra dimensão, nesta criava as mais belas história e sempre dava um jeito de ser alguma personagem, ora era principal, ora era coadjunte, mas sempre presente. Sonhar em fazer o bem, algo sempre presente.
O motivo dela frequentar esse prédio histórico um tanto barroco era e sempre foi esse, fazer o bem.
Na sua mochila preta além de livros e cadernos a pequena leva seus sonhos, seus medos...
Os medos que a deixam menor, que a faz não olhar para o alto ao caminhar, o que a deixa com o olhar triste e molhado, mas que não aquieta seu coração e não seu sonhar...
Ela precisa aprender a caminhar e libertar suas borboletas saltitantes para voar, alçar os mais altos vôos, lançar suas idéias para o vento e deixar que ele se encarregue em levar para qualquer lugar...
Ela precisa voltar a voar...

Sexta-feira, Fevereiro 23, 2007

O Silêncio da Vida


Era Londres quando tocou do céu um estrondoso barulho que mostra com o som, a luta entre nuvens agoniadas. A luz que o grande espetáculo transmitia fazia brilhar os tijolos velhos da grande mansão que se encontrava em alguma parte oculta da cidade. Acabara de chover e o chão ensopado ainda resistia às penosas ações do tempo e das pessoas. Na grande casa morava um velho milionário e cheio de vida vivida e vida pequena. Logo deixaria de existir; aliás, tão logo que sua ambiciosa filha e única herdeira, já que a mãe morrera de desgosto, cedo havia tratado de preparar ela mesma um lugar num cemitério graciosamente morto. Tão lindo com as flores diversas, árvores ricas e gramado perfeito, mas tão rude pelas almas e corpos frívolos e oscilantes que ali apodreciam sem mesmo alguma honra do que algum dia já foram.
Esta jovem álgida então, forjou o assassínio de seu próprio pai, em companhia de seu noivo de grande carnificina e pouco, ou melhor, nenhum fervor pela vida, mas sim pela morte. Pretendiam estes, casar-se e viverem suas vidas ativamente e com glamour na intensa Paris. O que não sabia a moça, era que seu merecido noivo, também pretendia matá-la quando todo o dinheiro pertencesse ao seu bolso.
Então o plano foi extremamente abusivo: ela pediria para seu pai descer até o porão, lá, ele seria morto pelo pescoço quebrado dando indícios de que caíra da escada. Sua filha falaria para as duas empregadas que sairia para uma visita a uma amiga, mas voltaria sem dificuldades, pois era dia de compras, e, cometeria o assassinato, deixando o corpo exposto. Depois entraria num esconderijo, pois as mulheres retornam em minutos, as compras sempre já estão feitas, basta pegarem no quarteirão vizinho. O noivo chegaria à mansão após as empregadas e, ao andar pelos corredores da mesma, chamaria as mesmas para verem o por que a porta do porão estava aberta. Eles descobririam o corpo, enganando as duas mulheres ingênuas e a polícia. Depois da retirada do corpo e do balburdio finalizado, o noivo da herdeira desceria ao porão e retiraria a mesma de lá; escondida, sairia ela da casa e voltaria dizendo não saber de nada, em prantos, a morrer…
Tudo pronto para o dia final do pobre e maldoso também, porém agora enfraquecido pelas doenças, velho.
- Meu bem, pela noite de amanhã estaremos ricos. – disse feliz a moça loira.
- Assim rezo. Seu velho moribundo; sua tristeza de hoje será sua alegria de amanhã. Nunca pensei numa morte tão esperada e sorridente como esta. – disse gargalhando baixo o rapaz.
Naquela noite, foi a filha do homem ao seu quarto.
- Pai, pode ir ao porão pela manhã? Desejo lhe mostrar algumas das lembranças antigas de nós dois. E já que é muita coisa, preferiria que o senhor fosse até lá, sim? Ora, não é muito esforço, lhe ajudarei, prometo. – falou falsa ao pai.
- Eu vou como último esforço a você minha querida filha, já que nunca mais conseguirei fazer nada mais por você. – disse meigamente o velho.
- Por Deus, não diga uma coisa dessas. Não seja tolo. Viverá muito porque quero que viva. Viverá até mais do que eu mesma. – e a farsa estava pronta a ser vendada. E já que ninguém nunca saberia se sairia ela ou não, já que o seu pai não mantinha bom relacionamento com as empregadas, ela tranqüilizou e teve uma ótima noite, pensando no futuro e na cobiça.
Pela manhã, a jovem se arrumou após o desjejum e saiu pela porta anunciando às empregadas que iria sair e só pretendia voltar pela noite. Logo, as duas mulheres saíram e ela voltou. Subiu ao quarto do velho e o ajudou a descer. Andaram pela casa e chegaram ao fim. A filha traiçoeira, não por matar a pessoa que era ele, pois tinha má índole, mas por matar o próprio pai, que apesar de tudo, nunca deixou que algo faltasse a ela, abriu a porta. Depois da porta aberta e quando a moça percebeu o que iria fazer, acovardou e viu que não conseguiria apunhalar o velho na cabeça ou mesmo lhe quebrar o pescoço. E tão desesperadamente decidiu o empurrar da escada e, se ele não morresse, o mataria, pois não haveria mais o que fazer, não poderia acovardar novamente. E o fez: jogou o velho do topo das altas escadarias; ele, ou seu corpo fez um malabarismo ofegante quando passava por cada degrau de duro concreto e morte infelizmente segura e diretamente ágil. Quando ela desceu, aliviou-se ao ver que estava ele morto. A filha do inexistente, a partir de agora, já ouvia as altas conversas das empregadas chegando.
Rapidamente ela abriu uma porta sobre o chão, que era um esconderijo que ninguém poderia achar, era muito bem escondido e de fácil acesso para quem soubesse de sua existência. Ele fora construído anos antes para a segurança da família, quando a Primeira Guerra ocorreu; estava inativo e inutilizado há quase uma década. Mas era totalmente seguro, só abria por fora (o que era o único grande defeito, pois antes abrira por dentro, lógico, mas depois de anos sem uso foi-lhe trocada a fechadura) e ninguém podia ouvir nada, estando dentro ou fora dele. E dentro, ela já havia colocado comida para que não passasse fome; havia um corredor minúsculo e apertado e depois, numa curva, uma saleta escura e fria, parecia assombrada.
Após alguns minutos dentro do esconderijo, ainda na porta, não entrando à salinha, ela pôde ouvir um gemido ao longe. Quase lhe veio a morte com o medo; e então, ela reconheceu quando ele falou, que era seu noivo tão infeliz.
Ela deixou escapar um grito tão horrendo que não entoou pelos céus a fora porque não pôde, assustou aos anjos e maus espíritos também; foi tão terrível quanto a morte em um dia chuvoso. Uma empregada ouvira a conversa da noite passada e contou ao patrão, porém lhe faltou coragem para dizer que a filha também se envolvera, então ocultou. O velho assim chamou alguns homens e mandou que prendessem para sempre o noivo de sua filha no esconderijo do porão e que o assunto fosse esquecido.
Foi ainda na capital inglesa, onde soavam dos céus clarões numa tarde chuvosa e tão triste; num chão ensopado pela água das nuvens e sangue dos homens, dos estrondos, e da úmida terra, não pela chuva, mas pelas lágrimas de alguém esquecido que se perdera em seus próprios sonhos que o sufocavam tão vagarosamente pela noite adentro.

Terça-feira, Fevereiro 20, 2007

Hora Certa...


- Eu acho que é uma característica bem minha mesmo, esse negócio de perder as esperanças... – Ela disse, fitando o céu nublado sobre suas cabeças.

- Mas porque você pensa isso?

Ele tentava encontrar naquele olhar algo que lhe transmitisse mais do que simples desencanto. Ela continuava a fitar o céu, como se não tivesse percebido a pergunta. Ele sentiu uma certa exasperação frente a tal descaso, mas com um pouco de esforço conseguiu conter-se: Já acostumara-se com aquele ar distante que ela assumia quando estavam sós. Abaixou a cabeça e esperou, mirando uma fila de formigas que andavam ordenadas pelo chão. Quis ter alguém consigo.

- Não sei... – Ela finalmente respondeu – às vezes eu penso que tenho certa propensão a perder as esperanças nas coisas, nas pessoas. Nos relacionamentos. Não é nada com você, é comigo. Eu sou o problema.

Levantando os olhos percebeu que ela o observava. Em seus olhos não conseguiu ler absolutamente nada: Eram olhos de vidro. Ele sorriu. Ela perguntou:

- Você está rindo do que?

Subitamente toda a situação adquiriu para ele um humor inacreditável. Desatou numa gargalhada incontrolável que a deixou com um semblante assustado. Ele pensou em tantas coisas que poderia dizer nesse momento e agora nada de realmente interessante lhe vinha à mente. Só conseguia mesmo achar tudo aquilo muito engraçado. Ela voltou a olhar para o céu, pensativa.

- Eu acho que vai chover.

Ele tentava se recompor, enxugando o rosto. Olhou para o céu franzindo o cenho.

- É verdade.

Ela o olhou. Os olhos negros vasculharam cada centímetro de sua alma. Ele sentiu aquele olhar como se um holofote fosse colocado em sua direção. Seu calor percorria-lhe o corpo. Sentiu de repente que era hora. A hora certa.

Perdeu-se por completo de qualquer sentimento de orgulho e desnudou-se por completo. Aprisionou-lhe os olhos nos seus e disse-lhe, sem pronunciar palavra, aquilo que ela precisava (merecia?) ouvir. Resgatou a flor que no chão se encontrava trazendo-a de novo à lapela. A montanha sobre seus ombros jazia destroçada.

Mais forte que ele, sempre o fora, ela desviou o olhar. Olhava para o chão e ele soube que naquele peito algo ainda se movia. Pensou em dizer algo, mas a hora certa, assim como viera, fora-se. Talvez para sempre. Pôs-se de pé e, dando-lhe as costas, deixou-a sem olhar para trás.

Dos olhos baixos algo escapou para o chão.

Segunda-feira, Fevereiro 19, 2007

Os Reinos do Jardins Mortos


E pela entrada do jardim via-se um terror que faria as veias explodirem; dum temor mais forte e obscuro como o medo em um dia de morte. As trevas envolviam cada objeto, folha, a superfície da terra, o tampo do céu, a casca das árvores e as flores como as das orquídeas envenenadas que nunca mais nascerão eternamente. Oh! As trepadeiras nascem para sufocar. Oh! As orquídeas; sim; nunca mais nascerão.
Da bela entrada que algum dia foi, para um jardim tentando respirar dentre suas próprias câmaras funestas. Em cima da porta, uma coroa anunciando a morte precedente para uma alma fraca e um espírito num corredor escuro. Horríveis são os sussurros e ruídos e gritos sufocantes calibrados de uma ornamentação travada e forjada pelos santos demônios que se contorcem dentre as várzeas folhais de espanto e preces não ouvidas. São eles rústicos e astutamente vibrantes, quebrando o espelho da Mãe que ali já não é mais. Vê-se, pelas grandes raízes das imensas árvores que crescem desgovernadas como nunca, o sangue escorrendo pelo seu corpo lenhoso lentamente e indo ao encontro da Grande Terra que se alimentará então desta seiva, deste ferimento do mundo. As raízes saltam com furor e no caminho que fazem, todos tropeçam e caem e são engolidos como algo no mar; assim é a terra estranguladora de suas vítimas. Oh, nunca mais irão nascer as orquídeas do tempo.
A história vem sendo escondida por páginas de histórias, muito dita por aqueles que não mais nascem a cada dia; estas páginas de meu diário. Tecendo o dia no nunca nesta luxúria impecável de mentiras que nunca escrevi. O dia se foi, a luz decaiu, o ar se perdeu. Oh! O dia caiu em trevas. Trepadeiras nascem para sufocar. Oh! As orquídeas se foram. Perdem-se em minha própria terra, agora se entende porque ele morreu. Sim. Um senhor para o medo. O meu Sol mora aqui, nunca mais ele aparecerá e o tempo dirá o sinal que virá.
Sapos que coaxam e pássaros da Morte que produzem em suas bocas mortais o falar repetitivo das Trevas. Onde nelas, o vácuo do Universo descansa após àqueles incompreensíveis odiados que pelos jardins passaram rapidamente e deles, fizeram-se todos os infinitos rancores de pavor e pequenez dos grandes Senhores do Mundo. Estes insolentes… Deixaram assim estas gramas antes brilhosas; estes arbustos antes deuses, agora coitados; essas vidas, agora somente morte. O que sobra da terra é aquilo que nunca mais nascerá. O que sobrou disso, é aquilo que nunca mais se entenderá. Mas assim ai de ser por enquanto viverem as malícias e, aqueles hipócritas, por bem, já passaram por lá ágil e não mais retornarão porque se sabe que o que estes merecem, o mundo não merece e nem a eles também. Eles mataram e não se arrependeram e assim com as orquídeas que, oh! Nunca mais nascerão.
No meio do Sol, do centro de tudo; uma jarra grande de barro que cospe água grandemente em seu interior. Uma nascente de um mundo, de uma terra assim. Dela, quebrada agora, formam rios de sangue que envenenados correm para dar vida aos infames infantes. Dar a luz negra para as árvores obscuras. Garantir o fumo azul em negro dos demônios assustados com eles. Chamar a vitalidade de ódio para que aqui prevaleça e ande e morra. Pois nem isso aqui vive eternamente. Nem isso aqui quer viver só agora. Donde canta, só dorme e faz gritar de medo por vezes e sempre. De aqui e aqui e para aqui, nada mais. Do grande vale dessa jarra; isso, fonte; desse chafariz eterno que sempre verterá por seus olhos ensangüentados e vermelhos a água da água dessa água. Agora hão ao de tudo saber, de tudo de crescer e aqueles, destruir. É desta água das trepadeiras mortas e vivas debeladas; é desta água das lindas e líricas orquídeas que já exalam malmente odores de sangue e, apodrecem sem amor em seus corações sufocados pelo medo de viver e o apuro de ser.
Nos cantos de cada canto um dia se esconde, um laço se esconde, uma tortura se esconde, uma tormenta se aguarda. Um dia para o sempre, um laço para os iguais, uma imagem para sempre, do caminho tortuoso do destino. Do guardar de uma lembrança escondida dos jardins e que no mal prevaleça. Dum tenebroso terrível que ternamente assusta, da alma de um santo que livremente correrá nas tristes gramas cinzas de um mundo negro.

Eu sei

Após várias tentativas loucas de escrever um texto qualquer, aqui está ele. O único que sobreviveu a não ser rasgado e jogado ao cesto de coisas desnecessárias de suas próprias vidas úteis. Me acho um doido sem serenidade no viver, por isso que acho que poeta se faz de rua, e não somente de pensar. Sabe quando se diz algo em seu coração e esse dizer não sai da ponta do lápis? O papel rejeita ser sujado de poucas, mas imunes palavras vomitadas de alguém que parece ser cúmplice dum assassinato tão terreno que se sujeita na mais bondosa prece. Não entendes o que digo? "Viver ultrapassa todo entendimento".
Somos todos poetas, mas o papel se rejeita para muitos de nós. Se não seria eu um grande homem de palavras.
Caro leitor, não se magoe com meu falto de entretenimento. É que o Brasil está sujo, nossa vida se perdeu, nosso amor se elevou tanto que fugiu por ser mesquinho. Nosso saber está noutro mundo. Ainda pegarei o jeito novamente. Mas enquanto isto não ocorre, me nego a fazer.
Paro aqui e protesto, pois não é falta de criatividade caro leitor, se você não entendeu, e não se sinta ofendido, mas você não está apto a me acompanhar com clareza e rapidez de um bom ouvinte. Não há cousa que explique isto. Apenas viva que você saberá.

EU TAMBÉM PROTESTO
Após longa data sem surgir por este lugar incomum para nós eis que retorno para uma ou outra caso permitam que assim seja.

Domingo, Fevereiro 18, 2007

Dormir, sonhar, pensar.


No jardim o botão se abre repentinamente. A flor nasce bela, destacando-se no meio da noite e seu perfume alcança as estrelas. A morte virá ao nascer do Sol e, da mesma forma que veio, a flor desaparecerá: Um labirinto de esquecimento do qual só voltará a encontrar a saída num tempo pré-determinado somente a ela pertencente. O quando é para sempre imprevisível, indeterminado.

Dentro da casa o gato dorme tranqüilo, quando um ruído na janela o desperta dos seus sonhos: Olhos verdes brilham na escuridão da sala. Ele espera. Parado escuta o silêncio ao redor. O feixe de luz da Lua que entra pela janela incide sobre o sofá, exatamente no local onde ele se encontra. Irritado, levanta-se e muda de lugar, refugiando seu sono na escuridão total. O gato sonha.

A cama é desconfortável. O velho senhor tenta encontrar uma posição que lhe guarde da agonia. O sono confunde-lhe os pensamentos e ele mal percebe o edredom que se arrasta pelo chão. Antes de embarcar de vez rumo ao vale dos sonhos, ele pensa, da mesma forma que o faz noite após noite, que amanhã deverá procurar um novo colchão. O velho senhor, sem perceber, dorme tranqüilo.

Sentado na escrivaninha o homem pensa. Tenta encontrar uma saída para o enigma que persiste em atormentar o seu sono. O cursor pisca esperando ansioso para preencher a tela em branco à frente de palavras que não vêm. Ele pensa que nunca mais será capaz de escrever uma única linha interessante e sente um misto de tristeza e desespero por isso. Não sabe o que será da sua vida sem a escrita. Os olhos vidrados na tela, o homem pára. Ele pensa.

Ninguém percebe: O gato sonha, o senhor dorme, o homem pensa. Lá fora a noite passa. A flor exala seu perfume que se espalha pelo jardim, iluminado pela luz do luar. Ela luta, em vão, contra a passagem do tempo, contra a manhã que se aproxima. A verdadeira beleza nunca é eterna e as batalhas mais importantes passam sempre despercebidas.

Dormir, sonhar, pensar.

É preciso enxergar.


Ontem, dia 17/02 fez-se um ano desde o primeiro post desse Blog. Fico muito feliz em perceber que um ano depois ainda temos muito o que falar, o que escrever. Agradeço àqueles que nos visitaram e que continuam nos visitando. É muito bom saber que alguém ainda nos enxerga de verdade.

Quarta-feira, Fevereiro 07, 2007

Grande Dia...


Abriu os olhos e pensou:

“Hoje é o grande dia!”

Levantou-se da cama bem disposto. Não se lembrava da última vez em que acordara tão bem. Foi ao banheiro e, para a figura que olhou-o de volta do espelho disse, empolgado:

- Hoje é o grande dia!

Tomou banho e barbeou-se como se estivesse se preparando para uma grande festa. A loção pós barba nem ao menos fez-lhe cócegas. Sentia o coração bater no peito, na ponta dos dedos das mãos, dos pés, no cotovelo, joelho. O corpo inteiro pulsava num ritmo cadenciado, rápido, apressado. A adrenalina que lhe percorria as veias fazia-o sentir-se grande, completo, invencível.

No quarto, vestiu a melhor roupa de trabalho que tinha, reservada para uso apenas em reuniões importantes, com clientes importantes. Terno: calça e paletó pretos risca de giz, camisa branca e gravata lilás, listrada. Calçou o sapato preto e abriu a gaveta de perfumes. Escolheu o melhor e mais caro: Francês, trezentos reais o vidro médio, cem mililitros. Uma borrifada no pescoço, uma no pulso e uma no corpo. Não queria exagerar.

Já na cozinha, esquentou o café rapidamente e bebeu de um gole. Correu para a sala, pegou a pasta, a chave do carro e dirigiu-se para a porta. A chave no trinco, parou. A cabeça deu a volta pela casa procurando algo que possivelmente havia sido esquecido. Voltou à cozinha e pegou um chiclete: Para o hálito. Abriu a porta e dirigiu-se ao elevador. Segundo subsolo, garagem. Entrou no carro, deu partida e saiu.

Na rua, o trânsito o irritava além do normal. Queria chegar logo, não podia perder a hora. Olhava constantemente para o relógio no pulso, uma peça antiga, que pertencera a seu avô e que há alguns anos fora-lhe dada pelo pai como presente de formatura, quando terminara a faculdade de engenharia. Lembrou-se do ar de dúvida do pai quando lhe dera o presente, meio que não sabendo ao certo se lhe era merecido.

O rádio do carro tocava um rock’n roll contagiante quando entrou no estacionamento do edifício onde trabalhava. Parou o carro na vaga de costume e esperou. Olhou em volta e não encontrou o que procurava. Suspirou aliviado: Estava adiantado. Nos minutos que se seguiram, seus pensamentos viajaram por uma infinidade de possibilidades, tentando formular na cabeça as cenas que, esperava, aconteceriam a seguir. Imaginava a coisa toda de mil formas diferentes e seu eterno otimismo teimava em pintar cada uma delas de cores invariavelmente impossíveis.

A ansiedade estava a ponto de tornar-se em desespero quando tudo começa a acontecer: O Palio prata, ano 2004 modelo 2005, quatro portas e motor total flex, entra lentamente pelo portão mecânico da garagem. O frio na barriga é tão intenso que lhe parece congelar a alma.

O carro pára.

Ele desliga o som e abre a porta.

Alguns segundos e a motorista do Palio sai do veículo. Terninho preto, camisa branca, o cabelo amarrado atrás, formando um rabo de cavalo, óculos de armação grossa, preta, pasta na mão.

Ele caminha lentamente até o elevador e aperta o botão.

Ela demora um pouco. Alguns segundos, uma eternidade. Seu perfume a precede. Um francês: Trezentos reais o vidro de cem mililitros.

- Bom dia!

- Bom dia!

O elevador chega e os passageiros embarcam. Ela aperta o doze. Ele o dezessete.

Dez segundos. Um mundo de possibilidades.

- ...

- ...

A caixa de metal pára.

- Tchau!

- Tchau...

Um grande dia.

Domingo, Janeiro 28, 2007

Seguindo...


Sigo,seguindo, sorrindo
por onde, pra onde?
não sei...
"the journey is the destination"
e na jornada sigo
seguindo
sorrindo
pra onde?
já disse...
E onde a visão
já não alcança o horizonte
Apenas a menina,
de mãos dadas com o menino
e o menino...segue
seguindo
sorrindo
pra onde?
...só sei que bem acompanhado
porque a jornada,
a jornada é o destino...

Mãos de Tesoura...


Tenho medo que minhas mãos de tesoura machuquem o seu coração. Pensei em você o dia todo e continuo pensando agora, enquanto escrevo essas palavras. Ontem quando nos despedimos você me disse que pensaria em mim, e me pediu que eu pensasse em você. Eu lhe disse que não precisava pedir, que você estaria presente em todos os meus minutos simplesmente porque não sei não pensar em você. Você me disse adeus e foi embora. Eu fiquei lá, olhando você partir com um enorme sentimento de vazio na alma: Não queria te deixar fugir de mim.

Eu não fiz nada. Sentado, lá fiquei.

Às vezes me pergunto se você realmente sabe o quanto eu te amo. Será que sei demonstrar de maneira totalmente convincente o tamanho do que sinto por você? Eu acho que não e isso me desespera. Tenho medo que você não se sinta amada. Será possível? Cada vez mais me convenço que sim.

Deveria eu ter me levantado e corrido atrás de você, apenas para confirmar meus sentimentos, apenas pra te dizer mais uma vez que você é especial? Sinto-me um monstro sem sentimentos cujas mãos (garras?) oprimem e machucam as pessoas que amo. Tenho medo que minhas mãos de tesoura machuquem o seu coração.

Amanhã, quando nos vermos de novo, vou te abraçar forte, como nunca. Vou dizer-lhe as palavras que você quiser ouvir. Não quero mais essa vergonha que me impede de expressar aquilo que realmente sinto. Você me despertou de um coma profundo do qual, a muito, tentava me livrar. Quero mãos e dedos de verdade.



"Antes dele aparecer nunca havia nevado.

Depois que ele apareceu, nevou.

Acho que se ele não estivesse mais lá não haveria mais neve.

Às vezes me surpreendo dançando na neve..."


Sexta-feira, Janeiro 26, 2007

Cordas


Ele tocava
Os acordes doces
Lá, si e assim
Docemente tocava:
Leve me leve
De leve revele.

Doces notas,
Pausas salgadas
Encantavam
E quase cantavam:
Me leve, me leve
Me toque de leve.

E ele tocava
O toque leve
Leve levava
E tocava.
Leve se ouvia
E de leve, si encantava.

Leve ele tocava,
Sempre tocava
De leve.
Tocadas diziam:
Que me leve!

Sol...


Gosto de tocar violão. Na verdade, primeiramente deveria dizer que gosto de música. Mas não é isso. Esse não é o ponto. Gostar de música é pra mim algo tão normal que não penso vida sem sete notas. Meu coração, acredito, bate num tom bem Jobim.

O violão. O violão é mais que música. A música sempre esteve presente em todos os meus momentos. Tenho com ela uma relação de profundo respeito. Sou ouvinte e, como tal, sou transformado por ela. Com o violão no entanto a coisa muda. Meus dedos passeiam por suas cordas e num instante as rédeas estão em minhas mãos. Sou criador. Tenho o remédio para qualquer mal ao alcance de um acorde. Um Sol talvez, brilhando forte na escuridão das minhas tristezas.

Mas, você me pergunta, porque escrevo isso?

Pra te dizer uma coisa:

Hoje acordei, olhei pro lado na cama e você não estava lá. Eu sei que você tem que viajar e não quero que deixe de ter sua vida por minha causa. Não é isso. É que ver o seu lugar vazio me causou um súbito aperto no coração. Em um segundo me senti o mais sozinho dos seres e desejei, talvez como nunca, um abraço seu. Precisava ver o azul do mar que são seus olhos.

Levantei-me. Fui até a sala e peguei o violão. Voltei para o quarto e sentei-me à beira da cama. Meus dedos criaram um Sol e você sorriu pra mim na praia, naquele dia quando nos vimos pela primeira vez. Si menor e minha mão toma a sua em nosso primeiro beijo. Ré e estamos na varanda de casa, contemplando as estrelas. Lá e você está cá, do meu lado, deitada em meu peito e dizendo que me ama. Boa noite.

A música terminou (Terminou? A música tem fim?) mas a sua lembrança permaneceu. Coloquei o violão de lado e voltei a dormir. Tranqüilo.

Nos meus sonhos você sorriu pra mim.

Quarta-feira, Janeiro 24, 2007

Carta


Sinto saudades do tempo em que você não sabia de mim, você era um segredo e eu também. Hoje antes de dormir lembrei de você, lembrei de nós, não das coisas que me davam esperanças, mas das coisas normais, das coisas de amigos, conhecidos, pessoas que se gostam. Antes eu perguntava pra você, antes eu queria descobrir você, mas com o tempo criei um medo dentro de mim, um medo que me impediu de perguntar, pois talvez a resposta fosse o que eu esperava ou contraditória. Alguns anos se passaram e eu pensei que você também ia passar, mas não foi o que aconteceu. Não sei se isso é bom ou ruim... De uma certa forma eu sempre quis ter amores incomuns, mas não um amor incomum. Dói escrever essas palavras, meus olhos quase materializam essa angustia, que apesar dos pesares convive comigo, a cada respiração. Muitas coisas foram pensadas e poucas se tornaram fato. Hoje eu sei que eu o amo com todas as forças e é um amor diferentemente igual. Eu quero o seu bem, mesmo que este não seja ao meu lado. Eu quero que você seja feliz que o seu sorriso cresça a cada dia e que a melancolia seja mínima e suficiente para enaltecer seus momentos de alegria. Como eu disse em algumas linhas atrás eu sempre quis ter, mas eu nunca tinha assumido isso ou melhor eu não acreditava que isso realmente poderia acontecer. Somos seres vivos e isso é óbvio, fazemos parte de um ciclo, de uma cadeia e temos habitos. Minha pergunta é se um desses hábitoas é o amor?. Não serei hipócrita e dizer que eu não tenho esperanças quanto a nós, de certo não foi você quem me deu, mas o meu amor, um imenso sentimento que não cabe em mim, sobra e faz com que eu o espere. Eu queria iventar uma história bem bonita a qual nós fossemos os personagens, assim sutilmente. Mas infelizmente eu não sou capaz. Primeiro porque banalizaria todos os nossos segundos. Pensei em escrever a verdadeira história, mas seria total incoerência minha se você também não fosse um dos autores.

Um par...


Ansiada por um par, ela sai sem rumo com esperanças de encontrá-lo.
A cada esquina tem a sensação de quem sabe cruzar com um par de olhos a fazer sentir um certo rebuliço no seu estômago. Caminha por ruas, avenidas e nada, dobra esquinas e o coração acelarado, um tanto cansado, deseja seguir em frente, acredita na possiblidade de cruzar com os olhos na próxima avenida. Percebe que isso não aconteceu, dá sinal para um ônibus que a levará para um lugar movimentado da cidade, com ruas largas e árvores no caminho. Pessoas saem do trabalho, algumas vão em rumo as suas casas, outras decidem parar em algum bar e papear com amigos e há ainda aquelas que somente caminham.
A jornada da moça continua.
Essa busca incessante começou após a ida a locadora com a finalidade de locar filmes para sua diversão, ao chegar lá deu de cara com uma senhorinha muito simpática e travaram uma gostosa conversa, a senhora curiosa com a espontaniedade da menina, o jeito de falar com as mãos e sua desinibição a deixou curiosa, perguntou de qual signo era. A menina responde que é do signo de libra e a senhora conclui, sim uma libriana, por isso o gosto pelas artes e essa forte maneira de se expressar, continuaram conversando. Risadas, perguntas foram feitas e respondidas. A moça descobre que aquela mulher além de trabalhar na locadora, é também astróloga, ela não era de acreditar em previsões, mapa astral e todas essas coisas vinculadas com os signos do zodíaco, mas achava interessante ouvir sobre, para comparar com ela, saber se casava com as sua personalidade, seu jeito de ser e seus anseios. Sabemos que todas as pessoas tem uma curiosidade em comum, saber sobre o coração, todos gostam de saber do estado civil dos seus próximos ou daqueles que acabaram de fazer amizade, com aquela mulher não fora diferente. A astróloga pergunta a menina como está o seu coração e ela diz sozinho, ou quem sabe apaixonado, mas como de regra continuava só, sem um par, sem aquele alguém que a gente espera encontrar no final de um dia cansativo para ganhar um carinho, um abraço, ser contemplada com o mais belo sorriso.
Ela anda só.
Então a senhora astróloga diz a jovem para não se preocupar, porque o seu signo nunca a deixará terminar a vida sozinha, disse que a libriana busca e necessita de alguém para dividir, multiplicar e somar as maravilhas e tristezas da vida... Só você não fica.
A moça não sabe se ri ou se chora, mas decide não ficar parada ali esperando algo acontecer, quer e vai a luta ou melhor a busca. No seu mundo de sonhos tudo é possível.
Ela, menina-mulher, garota sonhadora, pede através dos seus gestos delicado e outras vezes exagerado carinho e cuidado. Dá e esbanja sinceros sorrisos a todos que cruzam o seu caminho a espera de um dia quem sabe encontrar um par.

Sábado, Janeiro 20, 2007

Na minha terra do nunca...


Lá onde o verso vira prosa
e vice
e verso
onde os dias começam de noite
junto ao céu carregado de estrelas
onde saimos a caçar cúmplices de um nascer de sol
e o som do piano é a música ambiente
que dá o ritmo a embalar todas as belas histórias
lá tem pizza e pinga com coca-cola
e agente corre de mãos dadas na chuva
lá não existe relógio
e cada minuto uma longa e deliciosa hora
cheia de surpresas
permeada dos mais belos sentimentos
Lá, o lugar que encontrei pra chamar de meu
A minha terra do nunca...

Quinta-feira, Janeiro 18, 2007

Luz de Estrelas...


Esperas a Lua nascer, subas a colina dos sonhos, acaricies a relva verdejante e deita-te. Cubra-te no véu da noite e feches os olhos. O que vês? O que sentes? Com quantas palavras se descreve um sentimento? Com que letras escreverias uma emoção? Pensas ser possível tal tarefa? Impossível talvez? Nada é impossível àqueles cujos pés seguem as veredas do coração. Aí, de repente, tu paras e perguntas: “Como?” Respostas tais, sinto em dizer, não tenho. Penso que talvez estejas agora a desacreditar-me. Peço não o faças. Deita-te de novo. Abras os olhos e mire as estrelas. O que vês? Leia-te a ti mesmo e descubras que da luz vieste. O grande segredo se desnuda à tua frente. Não tenhas medo de inquirir, de procurar. Sejas explorador do infinito. Estendas as mãos e tateies as estrelas, deixes que seu brilho ilumine teu entendimento. Nas estrelas leio Esperança. E tu, o que lês? Feches os olhos e percebas que na escuridão brilha agora, tímido, um pequeno ponto de luz. Voltes pra casa e em teu quarto, durmas tranqüilo. Amanhã, ao acordares, teu dia brilhará em intensa luz...

Luz de estrelas.

Terça-feira, Janeiro 16, 2007


O coração não bate mais
Apenas um músculo continua em movimento, em trabalho
O cérebro mais esse músculo colocam em funcionamento o corpo
Levam o ser para todos os lugares, sem deixar rastros
Sem deixar vestígios de sentimentos
Alias, esse sempre foi o seu fraco
Sentimentalismo
Deixava tanta coisa de lado para dar vida a essas coisinhas que damos o nome de sentimentos
Presenteava os mais próximos com os mais sinceros votos de carinho e admiração.
Agora é ela que necessita de atenção
Não sente mais nada, não sabe quem é
O coração, sempre citado em conversas
Hoje apenas bombeia seu sangue
Apenas faz correr pelas veias de seu corpo os nutrientes necessários para a sua sobrevivência.
Sobrevivência?
Talvez não seja isso o que ela deseja.
Provavelmente nem ela saiba...
O que passa é uma mistura de confusões, de pensamentos mal resolvidos dentro dela mesma.
A caixinha de música soa em lembranças infantis.
A memória cheia de acontecimentos bonitos a faz sorrir por segundos, ela tenta no meio delas encontrar algo que a faça entender o que se passa.
Fica somente na tentativa...
A vida segue, os dias passam
A rotina permanece, seu coração apenas bombeia o sangue

Domingo, Janeiro 07, 2007

To Write About Fear..

She came to me and said something I didn’t understand very well, I didn’t get it. I thought that she was trying to be as nice as she could, but it wasn’t that. She was exactly that way: The most amazing girl anyone could ever meet. Suddenly I came to wish that I was wrong, that the situation was wrong, that every word I heard and everything I saw, were a big joke and that she was lying to me, just like everyone else. The heart is never ready to receive true love, true care. There’s nothing more frightening than to realize that somebody truly loves you and cares about you. To see in the eyes of that person the bright feeling of care trying to dominate your soul, makes you seriously think if you are worth of it. She looked at me with those unforgettable eyes and said the words. Those I needed to hear.

My heart broke down with the satisfaction and my head, my body, my soul, were hers already. Love should never be confused by fear.

I guess we should only fear not to love.

Quinta-feira, Janeiro 04, 2007

Pra menina dos olhos


Faço chuva, faço sol
faço, desfaço, refaço
faço meus dias brincando
e brincando faço as horas
horas de saudade
dias de vontade
vontade
saudade
felicidade
feliz idade
feliz cidade
feliz...
lembrei!
Hoje fiz uma rima
teu sorriso
minha alegria...

Quarta-feira, Janeiro 03, 2007

Egoísmo Criador...


Sozinho. De novo o mesmo substantivo. Adjetivo talvez? Não. Estar só é tornar-se único: Um ser Um. Quando o Ser é, substantivo se torna, ainda que Um. Das palavras que seguem, no papel em branco nasce o Ser. Dou a luz a um Ser novo, meu. Sua existência me pertence e sobre ela está sobreposta a minha vontade. O que desejo é, não depois, mas agora. Depois talvez? Antes, tanto faz. A decisão é inteiramente minha. Agora por exemplo, dos labirintos da minha mente, preencho o papel com símbolos. Letras latinas num português enrolado, cíclico, que carregam nos braços o filho que meus pensamentos, aprisionados em infinita cadeia neural, lutam pro trazer à vida. Quando? Agora mesmo, logo ali, naquela próxima frase. Nasce o Ser que, por ser singular, nos dois sentidos, é único. Desde já, momento de seu nascimento, condeno-o à solidão. Crueldade? Talvez. Não creio, no entanto. Na pele sofri a solidão das horas. Por que sofrer sozinho? Tantas vezes estive só, tantos dias, anos, que já não sei mais se o fato é tão ruim assim. Não me condenes. As pessoas subestimam a solidão. Sentes penas do Ser só? Perdes tempo. Ele é meu e, sendo assim, no estar só encontra o estar bem. Seus olhos de Lua brilham na neblina dos meus dias. De dentro do papel ele me mostra seu mundo. Agarra-me pelo coração, carrega-me em seus braços. O Criador nas mãos da Criatura. Como posso ter pena de um alguém tão cheio de vida? De verdade? Ele não precisa de ninguém. Tem a mim e eu a ele. Decido: O meu Ser sabe o caminho para a felicidade! Descubro de repente que o que o faz tão especial, é o desejo incondicional de traçar tal vereda por mim, indicá-la no papel com um marca texto cor de sol. Ele indica, mas não segue. Não o deixo. Antes que ao menos pense em dar o primeiro passo, a frase acaba, o texto termina. Ponto final. Daqui pra frente, sigo eu. Sozinho.

Sexta-feira, Dezembro 29, 2006

Buscar sempre...


Ele só queria um pouco de silêncio, mas a música, a batida, inunda-lhe os ouvidos embaralhando pensamentos com as mãos, como pedras de dominó. Ele fita a imagem no espelho à sua frente e esta não lhe transmite qualquer familiaridade. Os olhos embaçados de lágrimas confundem os contornos das coisas, misturando personagens, cenários e histórias.

Mãos sobre a pia, ele fecha os olhos, cabeça baixa. No escuro vê a si mesmo criança, correndo na praia sozinho, brincando na água enquanto o pai conversa com uma mulher estranha. A cena é antiga e ele lembra-se de pensar que iria ganhar um sorvete. Uma raiva súbita e violenta dirigida àquele menino e à sua infinita ingenuidade, enche-lhe o peito. Os olhos se abrem. No espelho à frente, ainda a neblina. Ele leva as mãos aos olhos, secando a vergonha num ímpeto nervoso. Alguém vem entrando no banheiro e imediatamente ele sai.

O som agora é insuportável e ele procura, em meio à multidão de corpos que dançam, sorriem, conversam, se beijam, se tocam, tornando-se algo como um único ser de mil cabeças, milhões de pensamentos, a mesa onde sentam-se seus amigos. No fundo do ambiente ele os encontra. Reconhecimento. Aos tropeços, ele caminha até o grupo.

Ele agora está sentado à mesa. À sua volta as pessoas conversam e gargalham alto. Ele permanece em silêncio. Nunca dominara ao certo a arte de misturar-se com as pessoas, ser como elas. Sempre fora diferente e, assim, a dor de ver-se só, saber-se só, massacrava-lhe o peito. Na mesa, um copo cheio do líquido catalisador de toda aquela alegria, a solução, o ponto de fuga de toda a sua solidão, brilha convidativo. Como poderia sentir-se só em meio a tantas pessoas? Como poderia haver tristeza em meio a tanta alegria? Ele não quer mais ser diferente.

Estendendo a mão ele segura o copo. Enquanto leva-o à boca, a imagem da manhã que saíra de casa, a porta batendo às suas costas e pai gritando palavras sem sentido à mesa do café vem-lhe subitamente à cabeça. Ele tenta lembrar-se da última vez que pudera conversar com o pai sem que esse estivesse fora de si, mas não consegue. Na verdade ele não sabe mais o pai que tem, não reconhece aquela pessoa. Saudades de quem se foi para sempre. O líquido gelado desse amargo, esfriando a dor antiga que queimava-lhe o coração, sufocante.

Ele perde a noção do tempo, espaço. As doses que se sucedem o convencem piamente que está bem, que nunca estivera melhor. Por algumas horas esquece-se do significado da palavra solidão. Ele olha em volta e reconhece sua família, aquela que nunca teve realmente. Essa é a realidade para qual havia nascido, que lhe tiraram quando ainda criança.

A lua vai alta no céu e a madrugada dança nos ponteiros do relógio quando finalmente eles saem do bar. Ele agora é outra pessoa: O grande dono do mundo, da verdade, da vida. Da sua vida. Olha para o céu desafiando as estrelas, gritando a plenos pulmões medos que não existem mais.

Ele pega a chave do carro, alguém pergunta:

- Cara, você tem certeza que tá bem pra dirigir? Acho melhor eu levar o carro...

A resposta é rápida, óbvia, honesta:

- Não! Eu tô bem, larga mão! Nunca me senti melhor!!!

Segunda-feira, Dezembro 25, 2006


O silêncio, um enigma matemático
Decifrá-lo, em alguns momentos seria praticamente um erro.
Mantê-lo,
A sabedoria diz...
O coração pede palavras,
Quer e necessita ouvir sons conhecidos
Os batimentos descompassados ansiosos pelos barulhos agradáveis que certa voz emana.
No quarto escuro, deitada, olhos fechados. Tenta com a escuridão delinear a face, transformar a ausência sonora em palavras no pensamento. Palavras que um dia desejara ouvir, não foram ditas.
Momentos que foram planejados, não acontecidos.
Tudo e nada se completam, ela não entende
Senta e levanta a cada minuto, não para quieta
Inquietude é o segredo dos seus sentimentos
Burburinhos saltitantes é o que deseja.
Quer reencontrar o brilho perdido.
Ele voltara para a estrela, agora ela ilumina seus sonhos.
Talvez não entenda que um dia tudo fará sentido.
A vida mescla os seus atos com os desejos.
O inatingível com o alcançável...

O enigma. Um dia sim, ele fará sentido.

Sexta-feira, Dezembro 22, 2006

Quebra-cabeça...


Quebra-cabeça...
Falta uma peça..
Tira, monta, troca. Falta uma peça.
Desmonta. Desmonto-me.
A vida prega peças.
Pega peças...
Grandes, pequenas.
Desmonta?
Não sei...
Paisagens, viagens...Quebra cabeça.
E a peça?
Não sei..
No fim, tudo volta pra caixa.
Volta...

Quarta-feira, Dezembro 20, 2006

Notas


Notas graves na cabeça do tempo:
Frio na boca do estômago,
Denuncia: mãos ansiosas e frias.

Notas agudas entre as graves:
Denuncia a transformação:
Dos olhos em estrelas,
Da boca em lua.

Notas graves e agudas oscilam:
Ritmo de fábrica.
A lua e as estrelas brilham.

Notas agudas na cabeça do tempo:
O olhar esbarra no olho.
E o instante torna-se uma pausa.

Notas graves entre as agudas:
A pulsação aumenta,
Denuncia: ombros tensos
E o céu nublado.

Notas graves.

Segunda-feira, Dezembro 18, 2006

Nunca vi saudade tão bonita...


Cheiro de chuva. Uma gota de chuva delicada escorre pela folha de papel, e a lua imponente lá no alto parece brilhar mais do que antes.

Na terra da garoa dificilmente o céu tem estrelas.

A música no rádio trás lembranças não tão distantes. Saudade.

Nunca vi saudade tão bonita.

E na lembrança momentos traduzidos em cores, o vermelho vivo se misturando com o castanho daqueles olhos.

Olhos que falam, preenchem o silêncio com palavras exprimidas em um olhar doce e fascinante.

E entre Drumonnd e Clarice perdido, me encontro. E entre abraços acabo me encontrando.

Encontro-me na beleza, naquele sorriso doce e por fim me encontro na saudade.

É nunca vi saudade tão bonita...

Domingo, Novembro 26, 2006

... de verdade.


Os olhos embaçados enxergam o escuro. Vultos. Lágrimas grossas escorrem face à baixo e o gosto salgado na língua lembra-lhe o mar. Ele ouve os gritos desesperados e algo perdido nas cinzas lhe chama a acordar, levantar-se, fazer alguma coisa. Ele não entende. Suas mãos estão mortas. Suas pernas estão mortas. O coração. Na garganta o intruso lhe sufoca a fala, dificulta a respiração, rouba o fôlego. A dor, substantivo nunca abstrato.

Um turbilhão de imagens confusas atropela pensamentos, lembranças. O tempo não tem mais sentido e o que foi, é, será: sendo. Ele está parado em frente à porta. É noite e há certa dificuldade em reconhecer a chave de casa. A luz da lua é branca como o leite que tomava no café da manhã, pouco antes do filho sair de casa, batendo a porta. Quando? Hoje? Ontem? Sempre?

A garagem está vazia. Alguém saiu de casa. A chave erra a fechadura e ele está caído aos pés da escada. Mal consegue levantar-se e, desistindo, deitado permanece numa enorme poça de vômito. Ele ri. Sem motivo, sem vontade.

Olha para o lado e vê a mulher. Ela corre em sua direção com algo na mão. Ele não reconhece o que é e ela o beija longa e demoradamente. Um abraço forte, um amor profundo, lúcido, vivo. Ele não reconhece aquele abraço, o contato é estranho. Ela está grávida e o um intruso na garganta explode em felicidade. Pode ser assim? Pode o ser eternamente feliz ser? As palavras se repetem e as perguntas não têm respostas.

A mão na boca sufoca o choro. Segura o intruso em seu esconderijo. Ele a ouve: os gritos, o pranto. Sente no rosto o calor úmido das lágrimas. O gosto salgado na língua. Sabe que ela está ali, mas não tem coragem de levantar os olhos. A dor não precisa de testemunhas.

A cabeça dói e a luz do sol ofusca-lhe a vista. Ela saiu para andar na areia. Ele vê o menino brincando na água e vira o rosto. Enche o copo e sorri para uma garota que passa. Ela é linda como em seus sonhos. Do alto do altar ele olha para a igreja lotada, os amigos, os parentes e pensa que não poderia ser mais feliz.

- Você promete?

A resposta é sim. Sempre o sim.

- Mais uma, doutor?

- A vai, a saideira?

- Vai sair pra beber de novo?

- Olha pra mim... ele só tem saudades do pai.

Ele acorda aos pés da escada com o telefone tocando. Ouve o grito. O choro. Levanta-se com dificuldade. Quando os degraus haviam ficado tão altos? A luz do quarto está acesa. No chão, ela chora. Ele pega o telefone. Do outro lado da linha ouve o homem dizer-lhe que o menino está morto. O coração sente o que os ouvidos não querem escutar. Ele cai. Joelhos no chão. Abre os olhos e a criança chora deitada ao seu lado. Ele ri. Sem motivo. Sem vontade.

Sábado, Novembro 25, 2006

... o que importa ...


Os olhos embaçados vêem o mundo girar à sua volta. A graça está em toda parte: da cor do céu ao cheiro da madrugada.

- Cara, você tem certeza que ta bem pra dirigir? Acho melhor eu levar o carro...

- Não! Eu tô bem, larga mão! Nunca me senti melhor!!!

As risadas saem descontroladas, carregadas de uma falsidade tão real que a ninguém contagia. Os outros olham-se por um instante: “Que se dane!” É o que os olhares dizem após um segundo de hesitação. As gargalhadas agora são gerais. Todos riem. Sabem que na manhã seguinte de nada se lembrarão e a certeza lhes confere um sentimento de poder: Poder fazer o que se desejar fazer. Invencibilidade imaginária. A vida na lata do lixo do subconsciente.

Gira-se a chave, o motor desperta. O tranco da guinada é forte e os passageiros gritam, algazarra total. Os pneus cantam alucinados e o carro parte veloz.

As luzes da rua passam rápido nas janelas. Quem se importa? A alegria proporcionada por aquele momento importa. Viver importa? Talvez. Não agora. Sim. Esse é o momento em que não se pára pra pensar nessas coisas. Ou em qualquer outras. Não se pensa, se age. E se ri: Muito.

A lua vigia de cima o veículo em movimento e em seu cuidado preocupado, tenta iluminar o caminho. A rua está deserta exceto por alguns vultos cobertos em mantos de escuridão espalhados sob os toldos das lojas fechadas. Dentro do carro o redemoinho de escuridão e seu hospedeiro bloqueiam a razão. A mão no volante esqueceu-se do sentido do verbo e o dirigir nunca esteve tão longe do guiar. Quem se importa?

A música alta no rádio termina.

- Põe outra música aê!

- Isso, troca essa porcaria!

O passageiro ao lado do motorista procura no player atender aos pedidos. São tantas as vozes que ninguém ouve ninguém e a algazarra termina, como sempre, em discussão. Confusão. Xingamentos. Empurrões. Na rua, um asfalto repleto de falhas desfaz linhas retas, confunde horizontes.

A seqüência de fatos se descortina rápida demais. Uma série de causas, como peças de quebra-cabeças, juntam-se construindo uma única conseqüência óbvia, irremediável.

Os olhos embaçados vêem o mundo girar. E ele gira mesmo. Quem se importa?

Sábado, Novembro 18, 2006

Sete Horas...


O dia vai se despedindo no horizonte e por entre os prédios, a luz do sol se entrelaça, abraçando o concreto num terno gesto de adeus. O ônibus lotado disputa espaço entre veículos menores numa eterna luta em meio ao trânsito caótico de fim de tarde da grande cidade. Sozinho entre tantos passageiros encontra-se um certo senhor José, 70 anos de idade e uma vida inteira repleta de banalidades pelas costas.

Nesse momento, a única coisa com que se preocupa o senhor José, que não lhe sai da cabeça, é o horário. A bem da verdade, aos olhos de pessoas normais essa dita preocupação não passaria de uma frivolidade, uma tolice mesmo. No entanto, para o senhor José, tal preocupação se mostra como algo de suma importância, assim como por exemplo o é, para o toureiro, os olhos do touro conseguir fixar.

As sete horas se aproximam. O ar condicionado do ônibus funciona a plena carga, mas o excesso de pessoas aglomeradas, torna o ambiente irremediavelmente quente e abafado. A tensão pelo avançado da hora faz brotar, entretanto, pequenas gotas de um suor gelado na testa do senhor José. Ele cogita nervosamente que, se saltasse no próximo ponto e à pé fizesse o restante do caminho, provavelmente chegaria mais rápido em casa. Com esforço puxa a corda dando o sinal. O veículo pára e o senhor José salta, aterrissando desajeitado na calçada.

Excitado com a carga de adrenalina que agora corre por suas veias, o senhor José olha no relógio. 6:45. Quinze minutos. Rapidamente ele imagina as melhores opções. Um enorme mapa preto e branco com opções destacadas em amarelo e um grande X vermelho apontando o local do tesouro aparece em sua mente. Milhões de cálculos rápidos são feitos e o resultado se mostra claro. Sem se demorar mais, o senhor José sai caminhando em passo acelerado, rua acima.

A avenida principal encontra-se congestionada por um mundo de carros e pessoas. Os corpos passam chocando-se uns contra os outros num ritmo ao mesmo tempo frenético e ritmado. A cidade pulsa como o peito de um grande mostro inanimado que dorme com a chegada das estrelas. O senhor José quer sair dali. Quer sair daquele mundo. Os ponteiros do relógio não param e tudo o que ele deseja é chegar em casa, entrar no único mundo que lhe pertence e livrar-se da solidão dessas ruas cheias de gente.

Algumas esquinas e avenidas depois, o senhor José finalmente chega à sua rua. Nesse momento ele já começa a sentir-se mais em casa. Lá no fim da rua, à direita, num ponto escuro onde à muito existia uma lâmpada em um poste, está o seu objetivo: O grande X vermelho. Ele olha no relógio. 6:55. Vai dar tempo. Pode até mesmo andar um pouco mais devagar. Não muito.

Andando agora com mais calma o senhor José observa as casas ao redor. Nessa vive uma família inteira: Pai, mãe e três filhos pequenos, de dois, quatro e nove anos. São três crianças lindas, mas ele não gosta de crianças, nunca gostou. O senhor José nunca teve filhos.

Mais à frente mora um casal. Dois velhinhos com idades parecidas com a sua. Mesmo nunca tendo se casado, o senhor José não entende como um homem e uma mulher podem viver juntos por tanto tempo. Ele não entende os relacionamentos. Por toda a vida preferiu se privar de tais incertezas em nome da segurança, do equilíbrio. O senhor José acredita piamente que relacionamentos só trazem dor e desilusão.

Apesar do horário, pode-se ouvir os ruídos das televisões ligadas, das conversas dos casais, dos pais, dos filhos, dos abraços, dos beijos, sorrisos. Famílias reunidas. Luzes. Cores.

O grande X vermelho é uma casa pequena, antiga, envolta em escuridão. O senhor José abre a porta, apressado. Olha no relógio: 7:00. É tempo. As luzes apagadas e o silêncio total o evolvem, espessos. Ele caminha em direção a sala e acende a luz. Olha em volta. Equilíbrio. Segurança. Seu grande sonho de consumo. São sete horas e um minuto e o senhor José senta-se na poltrona ansioso, tira os sapatos, alcança o controle remoto e liga a televisão. O jornal da noite vai começar.


Quinta-feira, Novembro 16, 2006






Piada é rir da própria vida.
Ri do teu erro, do que te agoniou semana passada. Sofra, mergulhe no mais profundo da dor pra quando sair, sair de alma lavada.
A música é desafinada?? Mais não deixou de ser música. afina a música, desafina a vida.
Desafia a vida...
Toma ela pela mão, tira pra dançar. A sua música desafinada. desafina a música, afina a vida.
Renova as alegrias, renova as dores. faz outra música, troca uma nota. Que tal um Sol?
O Sol brilha lá fora. Um Raul na vitrola.
Rimou? Faça rimas, as suas rimas. Rima o teu sorriso com alguma alegria.
E onde ficam os problemas? Logo ali...na puta que o pariu. Com eles é assim. Bate de frente. Pare de fugir. Funciona.
A vida não é tão fácil assim? Alguém disse por ai "viver é um barato agente é que acha caro".
Genial...
Não para de sonhar não. Facilita pra vida, facilita o sonho, é só querer.
Chora que é força, mais não esqueça de sorrir.
Sorrir é leveza...
Troque a caixinha de música por um disco do led zeppelin.
E por fim só uma palavra voando, abre a janela, e refletindo sobre o brilho do Sol (aquele que antes brilhou ali em cima) ganhou os ares e foi ser mais uma estrela por ai.
Permita-se...

Segunda-feira, Novembro 13, 2006

Triste Canção


Piada é ser coadjuvante da sua própria história.
Viver escondida entre os armários, socada nas gavetas da ilusão. Aquela que escondida desmancha os sonhos e faz a crueldade ilusória o seu prato principal.
A janela continua fechada. Nem um feixe solar entra, nem uma gota de escuridão sai.
Tudo se mistura, numa mescla enfeitiçada, sozinha.
Ela tenta encontrar a chave do cadeado da solidão. Tenta abrir seus olhos para imaginação.
Disca um número qualquer afim de ouvir uma voz aconchegante do outro lado da linha, quem sabe se confortar, mas ouve esse telefone não está disponível no momento.
Entrega-se aos fatos reais, as lembranças de uma história não vivida.
Volta para o armário, esconde-se na caixinha de música e dela sai a mais triste canção...

Domingo, Novembro 12, 2006

Caminhos


Não sei dos meus caminhos. Se são certos ou errados, lembrando que se perder também é um caminho. Por onde passo deixo minhas pegadas e junto com elas um pouco de mim.
Já deixei muito de mim por ai assim como levei outras tantas coisas.
Ahhh! As relações pessoais, assunto complexo prinicipalmente o amor e seus tantos dêmonios.
Mais voltemos aos caminhos, as pegadas , as marcas na areia ou na terra molhada que na próxima chuva irão desaparecer. Pegadas essas que apenas desaparecem em existência mais ficam vivas na memória e junto com essas pegadas uma foto, um sorriso, e tantas outras coisas quem podem marcar a vida de alguém. Com certeza valem muito mais que ter os pés no concreto da calçada da fama.
As vezes quero me dividir pra poder seguir por todos os caminhos possíveis, por vezes tenho acreditado não estar no caminho certo. Mais qual o caminho certo? existe um certo ou errado pra isso? Pensamentos desconexos leitores?
Se perder é um caminho.
Quero me perder aqui entre palavras, sonhos escritos, ou até mesmo me achar de mãos dadas com uma letra do alfabeto ou deitado em alguma palavra. confuso?
Se perder é um caminho.
Me perder entre imagens, saudades e abraços entre os beijos que ainda não foram dados.
Se perder é um caminho.
Me perder na rua. Ser meu próprio guia.
Me perder e deixar alguém me encontrar....

Quarta-feira, Novembro 01, 2006



É tarde. Uma sala, quatro amigos, cigarros e coca-cola. Assuntos dos mais variados, lembranças.
É bom compartilhar lembranças com amigos.
E entre as bricadeiras coisas sérias ditas por homens não tão sérios assim. Deus, filosofia, amor, conselhos e provérbios orientais feitos na hora. A coca acabou...alguém faz café? Ei acende um cigarro pra mim também?
Rilke, Neruda, Pessoa surgem na madrugada e novamente as coisas ficam sérias, no entanto sem perder a leveza de uma conversa entre amigos.
Mais q amigos...
Ali encontrei uma nova família, ganhei irmãos de verdade que não me deixam abandonar a briga, que não me deixam esquecer que a felicidade pode estar em um orelhão cheio d'água, numa piada ou até num jogo de baralho, e sempre me lembram que o ser humano pode escolher seus caminhos e tudo está sujeito a mudanças. desconstrução...
8 horas da manhã.Alguém pode fazer mais café??

Terça-feira, Outubro 31, 2006

O Mar


Viajar nas nuvens e nos mares
Me encantar com as ondas, com o vai e vem
Prestar atenção nos bichos voadores
Ora passarinhos a caçar peixinhos ao mar
Ora insetinhos estranhos e encantadores a voar
Borboletear...
Saltitar nos sonhos mais belos
Nos perfumes ainda não sentidos

Ahh, respirar aquele ar tão mágico
mesclando a maresia com as idéias que povoam os pensamentos
Trazendo lembranças, cheiros indescritíveis...
Mostrando que o amanhã pode ser bem melhor

Acordar com aquele sol a raiar, a dourar a pele um tanto de porcelana
Outro tanto de barro
Barro que pessoas não valorizam, mas que é a matéria prima mais sábia
Porcelana delicada, barro forte
Cristal a cintilar ternura

Mostrar suas cores...
Quantas cores, intermináveis

O sol, o mar, borboletas e insetinhos
Passarinhos e nuvens
Ondas que trarão alguma novidade
Num barquinho, no ventinho
Na conchinha encantada ou apenas no olhar...

Sábado, Outubro 21, 2006

Piscar de Olhos...


Os olhos piscam: Garoa fina. Gelada. Estou sentado no gramado de um parque vazio, deserto: Só, com meus pensamentos em você. No céu, um cinza claro encobre o azul e, na pele, a garoa fria mascara um calor que me percorre as veias. Meu coração queima de desejo, de saudade, de revolta. De raiva contra mim mesmo e minhas atitudes impensadas, mal pensadas. O desejo, é aquele de voltar, reviver agora o momento do sim e do não e agarrar o primeiro. Dizer sim com o brilho nos olhos e a certeza no coração. Não importa o que, não importa como. Nem o depois. Confusão. Indecisão. Insegurança. Pensei que sim e minha boca disse não. Os olhos que me pediam o contrário desviaram-se dos meus, sem jeito. Olhei para longe me perguntando: Por que não? A música toca sufocando respostas. Os olhos piscam. Estou só de novo. Sempre só, no mesmo lugar de sempre: Dentro de sonhos, fantasias. Volto pra casa pensando na resposta. Imagino dias coloridos, azuis e vermelhos. Misturo tudo e descubro que felicidade não se soletra, não se imagina. Fala-se e vive-se. Felicidade é decisão. O grande desafio da vida é decidir-se verdadeiramente por ser feliz. Paro, escuto. Silêncio. Longe, bem longe, eu ouço: Uma voz. Perto. Fantasio mãos e cabelos, corações que batem apressados, contando segundos: atropelando minutos. Horas que nunca passam. Tempo que não se repete, apenas é e continua. Pra sempre. Os olhos piscam e a garoa penetra fria, punhal no cerne da alma. Sentado no gramado úmido vejo mãos dadas. As palavras são doces, açucaradas de sorrisos e promessas. O passeio é longo: páginas de livros, cenas de filmes, letras de músicas. Acordes de violão que cantam nomes interligados por pestanas de sol. Eu e você. Minhas palavras são desconexas, ofuscadas pelo sorriso que escondo atrás de cada uma delas. Rosto pintado em letras de forma. Minhas letras, meu alfabeto. Você de A a Z. Os olhos piscam. O parque está cheio. Pessoas ao redor escutam, compenetradas. A orquestra no palco toca. O céu cinzento despeja sobre todos uma garoa fina, gelada. Ninguém se move. Escutam apenas. A batuta que rege o espetáculo é instrumento de feiticeiro. Gesticulam sons, descortinam viagens. Os olhos piscam.

Sábado, Outubro 14, 2006

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Ternos medos

Os minutos passam, as horas voam. O tique taque do relógio faz com que o jogue contra a parede. Está envolta num abismo de sonhos e pensamentos, sente-se perdida no oceano sem saber para onde os ventos a levarão.

Fica remexendo no passado próximo, vivendo das mais ternas lembranças e tentando decifrar o motivo para o seu vazio. Olha para o passado, para as brigas que tivera com as amigas, os desentendimentos que deixaram como marca anos de silêncio com os seus irmãos, as noites de choros bolando o plano perfeito para a sua morte quando ainda era criança. Com um doce e angustiado sorriso lembrara dos seus amores platônicos, dos nunca correspondidos, sofrera tanto quando desabrochara para o amor, o tapa dado na cara do menino que sentiu pela primeira vez a paixão, o sentimento triste das promessas feitas por ela mesma para ela. Não se envolveria com ninguém até completar dezesseis anos, o estudo e as responsabilidades sempre em primeiro lugar, o que ninguém sabia, o verdadeiro motivo da promessa, medo. O medo a perseguira desde pequenina, sempre estivera com medo da mãe, do pai, dos irmãos, medo do seu futuro, não corresponder os ideais da mãe, não cumprir com o desafio dos irmãos e o pior não ser o que ela mesma sonhara. Ser um desastre ela pensava e ainda pensa. Com o sentimento trancado, amava escondido, sentia as borboletas no estômago e não passava disso, fizera dezesseis anos, estava livre da sua promessa, podia agora amar.
Sentia um carinho especial por um jovem, alguns anos mais velho que ela, estudavam no mesmo colégio, nunca irá se esquecer do primeiro dia de aula que entrara na porta e ele saia, sentiu naquele momento algo diferente, como se ele estivesse iluminado por uma luz amarela e a partir de então o sentimento começou a crescer. Durante nove meses gostou dele escondida, sem ninguém saber, sem ele saber que ela existia. Depois de três anos gostando do rapaz, num momento que estava decidida a esquecer dele, após ter passado na faculdade mesmo ainda cursando o último ano do colegial, saíram como amigos e o beijo, o primeiro beijo da donzela aconteceu. Depois disso não falara mais com ele, entrou numa imensa tristeza e começou a se definhar, começou a faculdade, parou, ficou tempos sem estudar e então voltou. Apaixonada novamente por um outro ser que na verdade só sabia brincar com a cara dela, entregou-se aos estudos, continuava com os mesmos medos com alguns outros acrescidos ao longo dos anos. Era dedicada, amiga. Sempre com um sorriso no rosto e disposta a resolver os problemas do mundo, mas trancada em seu quarto ninguém percebia que ela também os possuía, não se incomodava com o fato das pessoas não enxergarem ela como um ser humano normal, gostava muito do fato das pessoas confiarem nela e enxergarem como uma amiga para todos os momentos, sempre sorrindo e saltitando.
Até que depois de se formar, sem pensar nem querer se apaixonar, algo acontece e ela se encanta pela pessoa que mais era o seu amigo, por aquele que achava brega, mas que sempre ouvira os seus sonhos, saiam juntos, riam juntos, brigavam. Ela com o seu charme e sua vontade de tornar aquele sentimento algo real não poupava nada para demonstrar o seu afeto. Nada aconteceu, perdera o amigo. Se fechara num mundo distante, longínquo trancada na torre mais alta do castelo que criara. Tentou viver a sua vida, descobrindo coisas que nem sabia que existia, muitos amigos cultivados na última década viraram as costas para ela, não conseguiam enxergar o profundo sofrimento e o acúmulo de tristezas nos olhos castanhos e sinceros. Foi descobrindo novas pessoas, novos lugares e novos sentimentos, em meses tivera feito amizades profundas, onde as pessoas conheciam ela por ela, não pelos seus dotes ou suas façanhas, mas ela.

Só que ela mesmo com pessoas novas continuava a sentir o peso, o vazio, o abismo que existia entre o mundo real e o dos sonhos, sabia que era um fracasso para mãe e um estorvo carinhoso para o pai. O que acreditava nela era seu irmão mais novo, eram como gato e rato, brigavam a todo o segundo mais sabia que um era o porto seguro do outro. Fora presenteada pelos irmãos com quatro belas crianças e ouvia de todos que havia ficado para titia, não sabiam eles como aquela chacota doía nas mais profundas entranhas do seu ser, não sabia as marcas que aquilo deixava a cada dia que se passava. Eles e a vontade de não se decepcionar eram o seu motivo de viver, sonhava com presentes belos para eles, com viagens, escolas, mas a única coisa que podia dar era carinho. Resolvera voltar a estudar, fazer o bem para o próximo, estava cansada de proporcionar com o seu trabalho coisas bonitas, caras e gostosas para as pessoas mais ricas da sociedade, enquanto via crianças na rua mendigando um prato de comida e um pouco de atenção. Seus olhos agora enxergavam coisas que nem mesmo ela se tocava que existia, por mais que fosse uma pessoa boa, durante muito tempo vivera presa nas suas agonias e nas dos mais próximos e se esquecera que o mundo era e é muito maior.

Fora cultivando as amizades novas, regando a cada dia com palavras e gestos de carinho. Cada dia a mais o vazio a atormentava, remexia-se na cama, tomava banhos demorados viajando nas suas mais malucas teorias. Saia pela cidade olhando o azul do céu e o branco das nuvens, vendo os semblantes de estranhos e se entristecendo com a realidade que a atormentava. Sentia-se cada vez mais impotente e os medos já eram seus pesadelos que lutava para não tomarem conta da sua vida.

Um dia, quando menos esperava algo de diferente aconteceu. Com palavras que saltaram da sua boca do jeito mais simples e verdadeiro, sem saber das conseqüências que aquilo iria lhe causar, falou sem pensar.

Hoje ela lembra com carinho, tensão, raiva, medo de tudo e de todos.

Questiona-se: - Onde foi que eu errei?
Qual escolha fora tomada erroneamente, num impulso egoísta de pensamento, mas só consegue sufocar-se em meio as lágrimas.

Recorda-se da imagem do rosto que a fizera pensar nesses momentos, está um tanto nublada no seu muno de relíquias sentimentais. Sente o vento soprando, não quer mudar de lugar, não quer encontrar um porto para ancorar seu barquinho, nem mesmo encontrar alguém que suportasse dividir com ela suas angústias e seus temores.
A campainha toca, acorda ensopada por suas lágrimas e amargurada pelos seus devaneios. Recebe um carta e abre.

Somos apenas estranhos num mundo de conhecidos.

Segunda-feira, Outubro 09, 2006

Breve História de Amor

Quero escrever uma história de amor. Não uma canção. Canções existem em compassos musicais e estes, não são suficientes pra conter a beleza do amor. A sutileza do olhar, do encontro. As primeiras palavras trocadas ao acaso, desde já carregadas de emoção, porém contidas, envergonhadas. O primeiro contato, a mão que acaricia o cabelo, o sorriso que acaricia o coração. A canção esconde, em meio a harmonias musicais, a desarmonia prazerosa do suspiro apaixonado, das lembranças cheias de cor, cheias de um sim, um não, talvez. Talvez. A incerteza. Na minha história as incertezas são singulares e as certezas plurais. Ele sabe, desde que a viu pela primeira vez sentada no banquinho isolado da praça, que dela seria para sempre. Ela o viu um momento depois, e nesse preciso instante foi atropelada pela certeza que dele seria hoje, amanhã e depois. Uma canção jamais contaria os detalhes e é aí que ela perde sua força. A beleza do amor se esconde nos detalhes, nos momentos mais insignificantes, nas imperceptíveis notas de roda pé que o coração insere no fim da página. É lá que o “felizes para sempre” tem seu sentido, seu lado real. É lá que o conto de fadas vira História de amor, com um H maiúsculo cheio de força, vontade de acontecer. A canção é ouvida, dançada. A história é vivida, contada. Cada boca que conta a história lhe dá sentido novo, magia nova, fantástica, que tenta em vão traduzir a linguagem indecifrável do amor. A canção de amor é sempre canção, somente canção e eternamente o será. Ela não muda, resiste ao tempo. A canção é eterna. A história termina. Sim termina. Minha história de amor tem final, porém esse é feliz. Se o final eu já sei, o começo... É agora, nesse momento, quando do banco isolado da praça você olha pra mim e a minha certeza une-se à sua certeza e o encontro... É pra toda vida.



Não consigo guardar histórias na manga... Elas saem voando...

Domingo, Outubro 08, 2006

Sobre-Vida

“Hoje pode ser o último dia da sua vida!”

Ele não sabe, nunca poderia saber. Às mentes humanas ainda não foi dado verdadeiramente o poder de prever o que está por vir. Será algum dia? Talvez. Driblar o acaso ou destino talvez não seja tão interessante quanto se submeter a eles. É com esses pensamentos na cabeça que ele sai da casa hoje, fones de ouvido ligados, desafiando o que está por vir.

O caminho que percorre, a pé, é conhecido. Ele o faz sem pensar, sem refletir. A música embala seus passos, mas ele também não lhe dá muita atenção. Sua mente repassa as palavras ouvidas de manhã que o despertaram do sono, acordando-o para o dia. O locutor da rádio dizia: “Hoje pode ser o último dia da sua vida!”. As palvras martelavam sua cabeça, indo e voltando, misturando-se ousadas em seus pensamentos. As mensagens as vezes são difíceis de entender.

Ele está parado no farol agora. Os carros passam velozes num tráfego ininterrupto. Ao redor, a cidade pulsa. Se parar fosse possível, sentiríamos o calor da sua respiração. No fone de ouvido a música não pára. Olha do outro lado da avenida as pessoas que, como ele, esperam ansiosas o farol fechar para poder atravessar. Confere o relógio. Está atrasado, mas ele não liga. Hoje só pensa na frase que o despertou.

O farol fecha. Os carros param. As pessoas começam a atravessar apressadas. Ele segue o fluxo. Na outra calçada uma pequena confusão chama-lhe a atenção. Uma pessoa encontra-se parada. Ele se aproxima e pode ver agora que o velho senhor tem o olhar perdido. Intrigado, tenta seguir-lhe o olhar mas não vê nada de especial. Os olhos daquele homem parecem enchergar o infinito.

Ele alcança a calçada. O velho senhor encontra-se parado à sua frente. Caminha calmamente, no ritmo da bossa e exatamente no momento em que passa ao lado do homem inerte, uma súbita decisão o faz parar. Virando-se ele pergunta:

- Senhor, está tudo bem?

O homem pisca. Uma reação.

- Senhor?

- Oi... O que?

O velho senhor parece haver acordado de um sonho.

- O senhor está bem?

Os olhos se encontram e ele sente o peso dos anos que estes viram passar. Um brilho húmido denuncia emoções fortíssimas e um coração tomado por violentas tormentas.

- Sim... Estou sim... Me desculpe. Eu estava aqui esperando o farol fechar e, de repente...

Parou, como que buscando as palavras corretas. Ou a coragem.

- Senti um vazio tão grande no peito... Não sei o que aconteceu comigo, mas eu pensei: “Estou aqui parado nesse farol, a poucos metros do trabalho, e se morresse agora, nesse exato momento, que sentido teria tido a minha vida? Que histórias minha família, meus amigos, contariam de mim?” Não sei mas a resposta me pareceu tão difícil.

Olhando para o velho senhor ele pensa que hoje sabe exatamente sobre o que ele está falando.

- Eu acho que entendo o que o senhor está dizendo.

- Verdade? Pois então entenda isso: Não deixe que a vida te atropele e você acabe se esquecendo daquilo que realmente importa. Hoje poderia ser o último dia da sua vida e me diga: O que você fez com ela?

O senhor o olha por um segundo. Um olhar profundo, que lhe fala à alma. Ele entende. Um sorriso brota nos velhos olhos cheios de força.

- Adeus.

- Obrigado.

Eles se despedem e partem, cada um em direção ao seu destino. Ele caminha calmamente, ao som da bossa. Olha para trás e o senhor desapareceu, misturado à multidão de pessoas que caminham apressadas, desafiando o que está por vir. Ele pensa na resposta à pergunta: “O que você fez com ela?” Apressa o passo, em direção à resposta.


ABRAÇOS!!!!

Sexta-feira, Outubro 06, 2006

Sapatos Coloridos


Ela anda na rua e ninguém a nota. Vai passando em todos os lugares, o intinerário é sempre o mesmo e nem sequer um bom dia ela recebe.
Anda cabisbaixa, sem um sorriso no rosto. Procura por passadas conhecidas, sapatos que há meses observa, mas hoje, justamente hoje não os encontra.

Ficou semanas se encorajando para dirigir um olá ao dono dos sapatos coloridos, olhava no espelho e treinava. Durante quinze dias fazendo as mesmas coisas e no dia da coragem, aqueles sapatos não cruzaram o seu caminho.

Não sabia o que fazer, por obervá-lo, sabia direitinho o andar que trabalhava, até já havia pegado o mesmo elevador que ele, mas nunca sequer uma olhada, uma piscada. Sempre ali, quietinha no seu mundo, nos seus pensamentos envergonhados e sofridos.

Mas no dia anterior tinha se decido, iria falar com o rapaz, procurou no andar dele e nada, esperou na saída e também nenhum sinal de vida. Não entendia o motivo da sua falta, nem sequer compreendia a afeição sentida. Só conhecia o formato do seu rosto, as cores dos seus sapatos e o vazio que sentia ao cruzar o caminho dele.

O mesmo se repetiu por semanas, não cruzava mais o seu caminho, não pegava mais o elevador, nem mesmo andava na mesma calçada. O coração dela começou a sentir um aperto, uma angústia, sentia bem dentro um grito estranho, não entendia o sentido da palavra gritada, só a dor.
Refletindo percebe que aqueles sapatos haviam criado um espécie de esperança, haviam trazido um rubor na sua face, sentimentos nunca antes sentidos. A espera do encontro era grande, mas entendia bem no fundo que era impossível, com o passar dos dias os seus pensamentos começaram a ficar cada vez mais tristes e envergonhados, a fala já não existia.
Trancava-se no mundinho escuro, imaginava o seu encontro, o seu olá, brincava com os pensamentos e nele até a entonação da voz sabia qual devia ser, imaginava o cruzamento dos seus sapatos com o dele, a cor da camisa, imaginava a voz, as palavras que da boca do outro saltariam direto para o seu coração.


Olha no relógio, meio-dia, decide não almoçar na lanchonete que fica no quarto andar e sim caminhar um pouco, lembra-se que dois quarteirões pra cima tem um bistrozinho bem confortável e resolve caminhar até lá, olha pela janela e vê que a primavera já chegou, um dia iluminado, o perfume das flores no ar. Pega e bolsa e dirige-se até lá.
Quando entra uma simpática garçonete se dirige a ela, mostra a mesa vazia e pronto, a acomoda. Janelas grandes que dão para um belo jardim, volta a refletir, deixa levar pra bem longe, os pensamentos mais singelos a tomam. Só volta em si quando ouve uma voz perguntando: Posso me sentar?
Ela parece reconhecer a doce e suave voz, olha para baixo e vê os sapatos coloridos.

Sem saber o que fazer, um largo e belo sorriso surge na face ruborizada...

O primeiro de muitos, o que daqui alguns minutos fará com que os sapatos coloridos se encante pela moça desligada....

Agora só o tempo poderá dizer o que irá acontecer, o tempo que antes era inimigo da menina cabisbaixa, passa a ser seu aliado. Resta agora ela aprender a lidar com a ansiedade e o medo. Cabe a ela viver!!

Terça-feira, Outubro 03, 2006



O mercador levou seus sonhos
Fora trocada por um punhado de café
Naquela mente tudo se passava, angústias, sonhos, medos, liberdade
A intensidade que vivia por minuto, no instante da troca desaparecera
Agora o que movia a sua vida era a incerteza
Os minutos corriam nas suas veias como um veneno
A dor a enlouquecia
A vontade de abraçar rostos conhecidos só aumentava a medida que aquele veneno se misturava com o seu sangue, grande tormento
O beijo que nunca houvera a faz derramar uma lágrima
Lembrança do rosto querido, da feição que movia horas de pensamentos
Da risada que a deixava encabulada, dos planos que tivera feito
O seu desejo maior é acordar desse pesadelo
Mal sabe ela que a sua nova rotina só está começando
Terá que aprender a viver sem vida, começará a olhar o dia sem um sorriso
Com o passar dos dias não enxergará mais a cor
Nem lembrará que isso um dia existiu

É só esperar...
Os seus mais belos sonhos agora estão escondidos num pequeno ser luminoso, na menor estrela do céu imenso

No lugar onde ninguém poderá encontrar, onde alma alguma poderá mudar o que esses sonhos viveram, o que esses sonhos sonharam
A estrela privilegiada por receber essas ilusões, agora brilha cada vez mais forte, mais intensa
Entende que existe um ser lá embaixo que agora sofre e sente falta da luz, do brilho
Começa a pensar em algum modo de livrar todo o sofrimento da pessoa que não possui mais o momento de sonhar
Pede para a lua transformá-la em um pedacinho de pedra, a estrelinha não se importa mais em brilhar o que ela quer é devolver a vida a alguém que possui sentimentos nobres dentro do coração.
Por sua vez a lua encantada com a atitude da estrela decide usar do seu verdadeiro poder, ao cair da noite descobre onde dorme o ser aflito, penetra no seu pensamento e devolve tudo o que estava contido no brilho exalado pelo astro luminoso, com um sussurro diz:
_ Corre pequena menina, corre...
Os seus sonhos te pertencem, as cores voltaram pra ti
Faça valer a pena sua nova vida!

Sábado, Setembro 23, 2006

Gotas


Chore e acompanhe a chuva.
Tenha picos: fortes e fracos.
Caia e umedeça a paisagem.
Ela ficará comovida,
Talvez também chore.

Aproveite o seu choro,
Não prive as lágrimas,
Deixe-as deslizarem livres pela a sua face presa
Sinta-as passarem pelos poros, pelas dores.
Você já não precisa de recordações, de imagens.

Estão na sua pele, gravadas.
O seu choro é a prova disso
As lágrimas tateiam qualquer lembrança
Sentem prazer: choram, e choram, choram.
Isso não é triste. É banal.

O choro não deve ser escandalizado,
O choro atravessa a madrugada.
Uma dor alta com um som baixo,
Assim deve ser.
Não incomode os vizinhos
Não precisa de lenço e consolo,
Mas, de choro.

Há motivos para chorar?
Para quê precisa de motivos?
Para piscar precisa de algum?
E motivo, emotivo.
Independentemente, chore.

Domingo, Setembro 17, 2006

Intimidade


- Você acha que estou ficando muito sério?

- Sério? Como assim?

- Não sei... Você não acha que eu ando meio deprimido ultimamente?

- Não me parece. Mas porque você estaria deprimido?

- Às vezes me parece que o mundo todo perdeu um pouco da graça.

- Perdeu a graça? Como assim? Por que?

- Não sei. Não sei de nada. Ando desaprendendo tantas coisas...

- Nossa, o que aconteceu com você?

- Porque?

- Não sei. Você tá estranho...

- Estranho como?

- Distante... Não gosto quando você começar a falar essas coisas.

- Que coisas?

- Essas coisas estranhas... Essas viagens. Parece que de repente você virou uma outra pessoa que eu não conheço. Não gosto de pensar que não te conheço.

- Que isso, não... Não quero te deixar triste. É que a algum tempo já, ando me sentindo... Sei lá... Velho! Parece que a vida passou por mim e eu perdi o ônibus. Não consigo mais ver graça, sentido. É como se minhas emoções tivessem morrido entende? Não sei mais se eu sou feliz.

- Entendo... Mais ou menos. Calma aí. Chega mais perto que estou começando a ficar com frio.

- Ah... Assim tá melhor?

- Tá sim brigada. Mas me explica melhor. Como que isso aconteceu?

- Eu não sei. Eu simplesmente abri os olhos um dia e senti algo diferente. Você estava no banheiro tomando banho, sussurrava uma música que eu não lembro mais...

- Que música?

- Ah não sei, não lembro. Também não importa. Você parecia feliz e de repente eu senti uma necessidade de estar feliz também, mas não me sentia assim. Não entendia porque, mas simplesmente não sentia.

- Que estranho.

- Pois é. Acho que a vida ta perdendo a graça pra mim.

- Ei não fala assim. Você não tá mais feliz com a gente?

- Não! Não é isso! Eu amo você... É que sinto como se algo tivesse faltando.

- Você não respondeu a pergunta...

- Que pergunta?

- Você não tá mais feliz com a gente?

- Não tô mais feliz comigo mesmo. Com esse sentimento de que as coisas não provocam em mim a mesma emoção que provocavam a alguns anos atrás.

- ...

- Você tá rindo do que? Pára!

- Err... Desculpa. Mas é que você tá parecendo meu pai falando.

- Ah é? Legal você né?

- Desculpa. Vem aqui. Olha pra mim...

- O que foi? Quer rir mais um pouco dos meus problemas?

- Não... Pára... Já pedi desculpas...

- Sei...

- Sabe... Às vezes eu fico pensando...

- O que? Que eu sou um idiota?

- Não... É sério, presta atenção... Às vezes eu fico pensando... Será que a gente saberia reconhecer a felicidade se ela cruzasse na nossa frente? Se a gente topasse com ela de repente?

- ...

- Talvez a gente seja feliz e não saiba.

- ...

- ...

- Será?

- ...

- Me abraça?... Brigada... Apaga a luz...

- Boa noite.

- Eu te amo, sabia?

- É eu sei... Também te amo...

Sexta-feira, Setembro 15, 2006


Não vou além, ele já está comigo Caminho pelas ruas e só encontro solidão Apertada ao peito, tentando se desgarrar daquilo que sempre foi verdade Pensa assustada, onde terei deixado os meus sonhos Guardados em um móvel da cozinha trancados a sete chaves Tem vergonha das pessoas descobrirem aquilo que mais quer Ou será medo de não poder realizá-los A cada dia a moça vai se esquecendo da verdade vista pela sociedade E acreditando cada vez mais no mundo que pintará Ela vibra, chora e ri Canta, dança e sonha, cada vez mais e mais alto O além a acompanha por todos os lados e a protege Do lado dele nada de ruim acontece, somente as lembranças a afetam Essas que um dia fizeram parte dos seus sonhos Que fizeram parte da vida e deixaram cicatrizes Dói demais lembrar-se delas.... Não gosta de sofrer, mas sofre por não ter conseguido feito as coisas a sua maneira Os dias passam e ela se fecha cada vez mais no seu mundo perfeito de solidão.

Terça-feira, Setembro 12, 2006

DORES


Ah, Dolores...
Você é incisiva.
Sabe o que quer.
Aproveita de minha fraqueza
Me consome, arrebata
E até mata.

São muitos os motivos para a sua existência

Às vezes com a falta deles você existe.
És impossível saber a intensidade de seus atos
Mas todos sabemos das tragédias de seus fatos.
Os fortes e fracos se igualam diante de ti.
Contraste não existe, muito menos metáfora.

Como definí-la?

Se és tão mutante.
Mágoa e Aflição
Dó e condolência
Enfim, o Remorso.

Dolores você és dolorida.
Toma o corpo e a mente,

Nada lhe escapa.
Faz as pessoas de abrigo
Nas ruas é possível ouvir,
Não o seu nome, mas seu apelido:"AI".

Quarta-feira, Agosto 30, 2006

Invernos diários


Escrever, sem passar pelo papel antes.direto na tela.O que me motiva?Fugir do método talvez. Impulso. Vontade de criar, juntar as palavras, ver o que vai dar. Construir um castelo de palavras, sem a pretenção gramatical. Simples. Sincero. E como sempre a inspiração é momentânea, o castelo parece desmoronar aos poucos,vontade de apagar tudo isso, desistir de escrever. Gostar de escrever. Saber escrever. Coisas muito diferentes. Gosto e quero aprender.
Querer, verbo pra muitos. Conseguir.......
O sol brilha lá fora, e eu aqui com meus invernos diários, brincando de escrever,querendo sorrir(sempre querendo).
"Love, love is a verb..love is a doing word...." me distraio ouvindo a musica, agora ela parece distantante, e novamente me distraio, agora perdido em pensamentos, lembranças...
O sol vai se escondendo aos poucos levando consigo o que restava de brilhante no dia.Nos dias.
E eu aqui com meus invernos diários.....brincando de escrever,querendo sorrir.

Sexta-feira, Agosto 25, 2006

Ver...


A borracha arrasta-se pelo asfalto num guincho ensurdecedor: Gritos de surpresa, um baque surdo do metal contra algo pesado, um gemido de dor. Não demora e o ar se enche de um odor característico, conhecido. Borracha queimada. Silêncio. Imperceptível, ele ouve um arrastar-se, seguido de ruídos de esforço. A mão que lhe agarrava o braço, e que naquele momento o aperta como se fosse ele segurança, puxa-o para mais perto, para que a voz lhe alcance mais rapidamente os ouvidos. A urgência rouba das palavras o sentido, e ele demora a entender o que na verdade adivinhara sozinho: Ali perto, talvez a poucos passos, uma vida terminava.

Ele não podia ver. Preso estava em um mundo de escuridão e, no entanto, sentia-se livre. Esse era seu mundo, o mundo que Deus lhe reservara e nele se sentia em casa. As pessoas passavam apressadas, esbarravam em seu corpo como se não notassem sua presença. Não era naquele momento mais que uma peça sem importância, um empecilho que atrapalhava a curiosidade. Elas queriam chegar perto, presenciar aquela luta ancestral, talvez perceber o instante preciso em que um corpo passa a ser apenas um corpo, nada mais.

Ele agora está só. Parado sobre a calçada, imóvel, apenas ouve. Tenta perceber os acontecimentos da única forma que lhe é viável. Em sua cabeça, cada voz ganha um rosto. Cada ruído, uma causa. Cada suspiro, uma alma. A cegueira enxerga a alma das coisas.

O filme é em preto e branco. A cena é trágica. No céu, brilha um enorme círculo branco, encharcado de calor e luz. No asfalto à frente um grupo crescente de pessoas que se acotovelam curiosas, jaz em murmúrios. No centro do grupo, um espaço vazio. Ali, vida e morte brigam entre si por um par de olhos que oscilam entre o abrir e o fechar. Ninguém se move. Ninguém ousa. A sede de tragédia camufla o fato de ali ao chão encontrar-se um ser quase vivo. Ou quase morto. Todos querem ver. Ver.

Ele se abaixa, rente ao chão. Os ouvidos captam verdades que aos olhos passam desapercebidas. Por entre o amontoado de pernas vemos dois olhos que brilham em choro. Sua cor azul é a única que se vê. A dor que expressam vai muito além da dor física, é espiritual. Que histórias se escondem, perdidas por trás do azul? Os olhos não vêem. Os ouvidos não ouvem. A alma, como sempre, sabe. É só com a alma que se sente de verdade.

Em meio a tantos ruídos diferentes, tantas vozes, falsos pesares, ele ouve o suspiro. Não precisa chegar perto, lutar ferozmente por um lugar na platéia para saber que o show já terminou. O preto e o branco reinam sós.

Põe-se em pé. Com a mão procura o poste onde, sabe, encontra-se o semáforo. O senso de direção lhe informa o caminho correto. Os ouvidos, a cor vermelha do farol. Atravessando a avenida ele pensa no azul. Que cor seria essa? Ele não sabe. Ele nunca a viu.

Quarta-feira, Agosto 23, 2006

Uma música...


"A tristeza é senhora (...)”.

Suas lágrimas estavam presas nos olhos, há tempos seu pranto não se tornara canto.
Deveras a moça tinha coração de poetisa. Rimava tristeza com primavera e isso quase resultava em jazz. Se brilhasse desejaria ser estrela de forma que seu reflexo a deixasse cega. Cândida escondia-se no silêncio das relações e assistia as pessoas de um lugar privilegiado: o palco, nele também apresentava suas inúmeras personagens. Não era atriz, era moça. Enquanto ficava por de traz das cortinas vermelhas, dançava, rodopiava pelo palco - sem música mesmo - sentia os compassos, imaginava as pausas, os acordes rolando e acordando para a bailarina que de novo rodopiava e quase cantava. Após alguns instantes de exaltação as cortinas se abriam e imediatamente cordas eram presas em seus pulsos e alguém - um ser indescritível - controlava suas falas, seus sorrisos e o piscar dos olhos. A platéia não prestava muita atenção, de vez em quando alguém tentava entender o que se passava, mas logo desistia, pois os olhos fundos que armazenavam tanta dor, afugentavam qualquer aproximação. O olhar tornara-se uma forma de defesa, onde guardava dores de todo o mundo.
Cândida prestava atenção no público, desde os casais até as comadres que de quando em quando, feito gralhas soltavam gargalhadas e a fazia imaginar tempos em que a liberdade fosse prioridade e o amor, romântico. De certo uma relação estranha, a farsa era tamanha e os rios de sorrisos pareciam gravados, mas isto era o que Cândida achava ser felicidade. Controlada e conseqüentemente insegura de seus atos imaginava como seria ser livre e ao invés de no palco estar pudesse ao menos se sentar na última fileira. O que lhe deixava inquieta e repleta de dúvidas era saber quem assumiria o seu lugar, afinal assistir não é uma tarefa fácil, há um punhado de regras e trejeitos que compõem o espetáculo de figuração.
Em uma de suas exaltações antes do espetáculo, Cândida caiu, bateu a cabeça e desmaiou. Enquanto estava lá, estendida no chão, sonhou estar em um anfiteatro (o mesmo que se apresentara) assistindo a própria vida. De súbito ficou estagnada e as lágrimas claras sobre a pele escura invadiram a sua face, o choro sufocou e em um soluço ela acordou. O primeiro sinal para o início do espetáculo soou e simultaneamente ela cortou as cordas, todas elas e trancou em uma pequena sala o “Senhor Controlador”, após alguns outros sinais as cortinas foram arrancadas pelas pequenas mãos de Cândida e a moça da forma mais bela e sublime dançou: seus passos traduziram notas musicais, sua voz cantou a dor e de seu encanto surgiu o amor que fora esquecido lá fora, no frio, mas que seus vorazes sonhos trouxeram à tona algo sublime, bonito, algo que apavora a solidão. Daí já não existia palco e platéia, restava apenas o filho de Cândida: “um samba”.

“(...) O samba é o filho da dor. O grande poder , transforma (dor)”.

Domingo, Agosto 20, 2006

O Mundo de Liz...


Quando ando por aí, pedem para eu escrever algo alegre. Sempre sou questionada do por que dos textos tristes. Falam que não há possibilidade da tristeza num ser cativante e risonho.
Só que esses seres não entendem que não é por causa de um sorriso que há alegria...
O que se passa aqui dentro... A verdadeira face de Liz...
Uma menina repleta de sonhos e por ser tão sonhadora não cresce, continua no mundo da fantasia, onde lá tudo é possível. Quando se depara com algo errado, não entende e chora. Fica amargurada e um pedaço do castelo construído com amor, risadas, sonhos e travessuras acaba se destruindo.
O nariz de Pinochio cresce quando mente, castelo de Liz se desmorona quando consegue enxergar o verdadeiro mundo que vive.
A distância que existe entre a razão e a emoção torna-se cada vez maior e mais dificil de ser percorrida...
Agora ela só percebe as desilusões que encontra no seu caminho, aquele mundo de sonhos esta prestes a ser quebrado. O problema, se isso acontecer a pequena Atômica morrerá...
Quando encontra algum motivo para escrever, esse é de angústia, vazio, dor, tristeza. As alegrias são pequenas e momentâneas, nada sobrevive na imensidão dos pensamentos.
Ela se prepara para deitar e ora. Todas as noites a mesma rotina.
Seu maior pedido ou será o único. Um dia acordar no seu mundo de sonhos!

Segunda-feira, Agosto 14, 2006

ESQUADRO

A foto fez com que eu lembrasse, sei que ela não estará lá sempre para eu recordar. Quem dera ao invés de retrato fosse uma escultura de ferro ou de qualquer outra coisa que normalmente no ambiente fosse fria. Seria mais incisivo e dolorido. Sou masoquista: olho no espelho e vejo um belo sorriso. Há coisa mais cruel do que você achar graça na dor, gargalhar das lágrimas ou da falência dos sentidos? Definitivamente não. Respondo por você, sei o que pensa.

Não sou romântico, sou dramático, não espero que o vento me traga respostas. Gosto de cenas, de interpretação, de coisas métricas, concretas, contadas, gravadas, grafadas, enfim retas. Tolice é achar. As coisas têm de ser. "Se é ou não é".
Sou covarde, eu sei, mas se pudesse faria da vida um ciclo vicioso de solidão, de silêncio, de palavras. As coisas seriam fáceis, autênticas. Talvez a perfeição, da qual Plantão tanto articulou, existisse nesse mundo de quatro paredes, quadrado. Um mundo quadrado, símbolo do meu ser, da minha vontade, da minha verdade. Nem maior, nem menor, apenas um quadrado. Exageradamente cético sou. Sim, você deve me julgar, a razão sempre prevalece.

Aprendi muito com os obstáculos, mas cansei de ultrapassá-los, não vale mais a pena. Acostumei com a vida, descobri que o mundo quadrado pode existir e as perfeições estão presentes. De certo é difícil enxergá-las, ainda não consegui vê-las, a fumaça fétida encobre a realidade e a sujeira é jogada para debaixo do tapete. Sei, mas não vi, surgem dúvidas é tudo muito duvidoso e relativo, Einstein sabe disso. Os exemplos são os mais diversos, às vezes alguém tropeça, coloca o dedo no nariz ou rouba mais um milhão e “sem querer querendo” um ser torna notícia, a população fica indignada, com medo, com pavor até das conseqüências do próprio medo. Um dos filmes que retratam o que digo é “Tiros em Columbine” do estadunidense Michael Moore.
Por fim, o prato de comida é apoiado nas pernas e torna-se testemunha de uma “família reunida”, assistindo o mundo, mas não fazendo parte dele. Outro dia surge e vem com ele outra verdade e outra mentira.
Contraste: sou a prova dele, sendo eu cético parecendo romântico.
Diferença: basta-me abrir a janela do quarto quadrado.

Meus olhos cá estão para serem motivo de chacota, de alegria, de gargalhadas ou até mesmo para você lembrar de enxergar os próprios olhos.

Quinta-feira, Agosto 10, 2006

Grito e Desabafo


Ela está diferente. Seus olhos não sorriem mais. Tudo está distante, seus sonhos e objetivos parecem não existir, provavelmente foram esquecidos ou enganados em alguma esquina.
Tudo o que pensas pode ser traduzido em apenas uma pergunta: Será?
Desacreditada está da vida, dos amigos, amores e rumores. Estremecida está, sente terremotos, abalos de sensibilidade na sua cabecinha sonhadora. Depara-se com a imagem de um herói e duvida dos seus feitos.
Desenganada, chora... Lágrimas escorrem da sua face lânguida, um tanto morfética. Pensa, exalta-se. Grita aos quatro cantos, pede ajuda. Um segundo se passa e novamente nada acontece.
Turbilhão de pensamentos, outro herói, outra história e tudo acaba do mesmo jeito. Será que aquele ser sonhador que eu conhecia desapareceu dando lugar para um ser cético, infeliz e opaco??
Não, isso eu não quero. Alguém pode ajudar??
Por favor, ela precisa de ajuda. Necessita acordar desse feitiço que desencantou a louca sonhadora para o mundo preto e branco, isso a faz sofrer, chorar, não porque acredita no amor, nos sonhos e nas pessoas e sim porque acabou sendo tomada pela realidade egoísta dos seres infelizes e sem amor. Crueldade e frieza é o que sente esse coração sensível e dolorido...

Será um desabafo ou um medo?

Socorro, não sei o que escrevo...
Perdida numa explosão de idéias, ideais...

Não mais sensata ou será que algum dia a sensatez fez parte da minha vida?

A única coisa que posso afirmar nesse momento é algo começa a mudar e não gosto disso. Mudanças doem, formar cicatrizes, nem sempre curadas. Ser humano medroso, não quer crescer, prefere deixar de lado as mais novas glórias, para viver de lembranças. Um belo museu eu daria, sempre saudosista, o passado é glorioso e o presente nada demais.
Catástrofes, todos os dias acontecem e nem sempre nos damos conta. Estou cansada das manipulações diárias, das chantagens emocionais e da falta de sinceridade. Por que as pessoas acham que não temos motivos para tristeza ou para o medo? Só porque somos crianças um tanto crescidas?
Não entendo isso... Esse nó necessita ser desatado... Os encantos não querem ser quebrados. Prefiro as surpresas, sempre. Gosto de mágicas, brincadeiras e risos. Problemas sempre terei, aprenderei a conviver com eles, um dia quem sabe consiga resolvê-los. Mas ainda pergunto, o que está acontecendo?

Não sei, não vi o causador das feridas. Desconheço os motivos. Uma crise psicológica, talvez...

A gente nunca sabe a verdade por traz dos fatos...

Máscaras caem e eu nem sei ao menos quem sou...

Domingo, Agosto 06, 2006

Vencido Ser...


Desde o início, eu já sabia que não daria certo. A consciência, voz imortal, sabedoria divina afogada em pensamentos humanos, avisava-me que seria assim: que meu destino era estar aqui hoje, sozinho a observar a Lua cinzenta que já vai alta no céu. O grande satélite e a folha em branco minhas únicas companhias. A teimosia alimenta-se de esperanças ilógicas e nos leva a pensar isso, imaginar aquilo, esperar e esperar, enquanto o veículo da vida se move desgovernado rumo ao inevitável.

Cruzávamos quase todos os dias e meus olhos de longe procuravam os seus, desesperados. Ela demorava uma eternidade para perceber-me a presença, e finalmente quando o fazia, a recompensa pela espera era o mais belo sorriso que um rosto humano jamais poderia expressar. Naqueles poucos segundos meus pensamentos confundiam-se, as palavras fugiam e eu nunca sabia o que dizer, o que fazer. Nos afastávamos e o depois era sempre doloroso, pois sua ausência deixava um vazio, preenchido apenas pela exasperante lucidez que fazia-me odiar a outrora falta de palavras.

Nos falamos poucas vezes, mas sua voz sempre foi diferente. As vogais e consoantes que lhe escapavam dos lábios, eram como borboletas coloridas que voavam e me enchiam as voltas, dando vida ao meu universo sem cor. Os momentos intermináveis em que estava sem ela, foram aos poucos se transformando em agonia insuportável, e eu já não sabia mais pensar, falar, ouvir, nada que não tivesse seu rosto, seus ouvidos, sua voz.

Vencido estava eu desde o começo. Nunca fui se quer uma aposta. Quando resolvi lhe entregar o que crescia em meu peito, o fiz por não suportar mais a dor, suspeitava que se com um bisturi abrissem-me o peito, pétalas de flor com seu nome escrito em sangue, meu sangue, saltariam pra fora, inundando o mundo. No momento em que falei as primeiras palavras, vencido estava e vencido estou, agora e sempre. Só, me resta a Lua, as poucas estrelas no céu e o papel em branco, rendido.

Sexta-feira, Agosto 04, 2006

....


Dias frios.Pessoas, momentos, lembranças. Acordar e saber que não tem ninguém te esperando, se preocupando não é muito bom. Sobram sorrisos, faltam abraços acho que vou trocar essa história por uma de criança, só assim pro mocinho se dar bem. Mais uma vez as palavras colocadas no papel não são um sinal de felicidade. Será que essas palavras vão encontrar um coração desavisado pra fazer sentido? Paro em frente ao espelho. Sorrio. E ele também sorri pra mim, um sorriso triste, cheio de perguntas, um sorriso de notas desafinadas. E só então me dou conta de que aquele sorriso.......
Sempre há tempo pra corrigir o que foi escrito.
Faltam sorrisos.........

Terça-feira, Julho 25, 2006

Escrever...

Faz um tempo já que acordo todos os dias com um sentimento estranho de urgência. Um hábito que virou costume e hoje é algo como uma obrigação. Fazem quase quarenta dias desde que escrevi pela última vez. O verbo aqui tem um sentido menos amplo, mais direto. Escrever pra mim é por no papel, ou na tela em branco do pc, um pensamento, uma reflexão, um sonho. Platônico? Talvez... Hoje meus dedos se cansam digitando palavras sem alma, sem sentido figurado. O concretismo da vida, da minha vida, me deixa com sede. Sede de metáforas, figuras de linguagem que disfarcem um pouco o sentido tão exato da existência. Falta um equilíbrio. Quero voltar a misturar números simples e palavras difíceis numa grande sopa de sentidos abstratos, num emaranhado de histórias de vidas que não vivi, mas que vivem em mim (só em mim?), como um prolongamento estranho, diferente. A tela em branco falou comigo, e da ausência um mar repleto de seres conhecidos surgiu. As palavras me convidaram a nadar e o mergulho encheu de energia o meu espírito. É difícil retornar quando nos desviamos tanto do caminho. É difícil reaprender a nadar quando o que era mar tornou-se deserto. Cavo fundo no deserto da vida e o mar eu reencontro, escondido atrás de cada porta, em cada gota do ar que respiro.
Obrigação?
Deliciosa obrigação...

Eu volto.

Sexta-feira, Junho 16, 2006

Nuvens que Choram...


Agora...

O fim de tarde se aproxima. Trancada em seu quarto, assistindo o mundo pela janela aberta, ela pensa no que fazer, qual o próximo passo.

Algumas horas antes...

Sempre gostou de andar sozinha. Sentia-se melhor na companhia apenas de seus pensamentos. Os vinte minutos que a separavam de casa sempre foram os melhores do dia. Reservava esses momentos para encontrar-se consigo mesma, na ânsia por descobrir um pouco mais desse ser tão desconhecido. Hoje, como em todos os outros dias, caminhava tranqüila, sem pressa, imersa num oceano de divagações que envolviam toda sua vida e engoliam toda a sua atenção. Não percebeu, portanto, o estranho que se aproximava cambaleando, atravessando a rua à sua esquerda. Ainda, não seria absurdo afirmar que, quando deu pelo homem que já se encontrava à sua frente, sentiu como que um fio gelado lhe percorrer a espinha e a interrupção de pensamentos a deixou momentaneamente perdida, presa em algum lugar entre passado e presente. Foram apenas alguns segundos, mas as imagens que surgiram em sua mente eram lembranças a muito esquecidas. Ou não. Aquele cheiro...

Dez anos atrás...

A subida é interminável. Um a um ela sobe os degraus que parecem nunca ter fim e o medo a faz tropeçar inúmeras vezes. Lá embaixo as batidas na porta, os gritos da mãe, confundem seu raciocínio. Ela se divide entre a vontade de voltar para ficar com a mãe e a promessa de obedecê-la, independente das circunstâncias. Alheias à indecisão da mente, as pernas a empurram pra cima, em direção à porta do quarto que agora já pode ser vista.

Ela chega. Abre a porta e pára. Lá em baixo as batidas são interrompidas e o choro da mãe é tudo o que se ouve.

O silêncio...

... é quebrado pelo crescente ruído do vento que chacoalha as copas das árvores numa louca disputa de força. O céu escuro prenuncia chuva. Subitamente, raios riscam as nuvens com pincéis cor de luz e no horizonte trovões raivosos tremem o mundo. Sobre a cama perfeitamente arrumada uma alma atormentada treme. A tristeza renasce forte a cada segundo liquefazendo-se em lágrimas que inundam olhos e afogam o coração.

As lembranças... Vivem.

O homem segura seu braço esquerdo e dirige-se a ela com palavras confusas, arrastadas que ela, mesmo se totalmente presente, não entenderia. O cheiro conhecido invade suas narinas e o presente começa a se desvanecer, como numa fraca transmissão televisiva. Acordada, ela sonha e no sonho...

... a mãe chora e balbucia palavras que ela não entende. Em sua mente uma voz a aconselha a voltar, ela quer voltar, mas o medo paralisa seus músculos. O que fazer? Qual o próximo passo? Indecisão. Sempre a indecisão.

Seus pensamentos são interrompidos por um forte baque seco seguido de estalos e rangidos de quando a porta de frente é derrubada. Os gritos da mãe são agora gritos de horror e a grande carga de adrenalina inunda-lhe o sangue de amargo desespero. Sem dar um segundo aos pensamentos ela se volta, entra no quarto, fecha a porta e corre em direção à cama, procurando abrigo na escuridão que vive ali embaixo. Escondida, fecha os olhos para ver apenas a si mesma, mas os ouvidos, que não possuem essa qualidade, continuam ouvindo.

Gritos.

Pedidos de socorro.

Xingamentos.

Móveis que se quebram.

Corpos jogados ao chão.

Silêncio.

Passos na escada...

... e alguém bate à porta:

“Tudo bem aí dentro?”

Ela mente que sim e sua mãe a diz pra fechar a janela, pois a chuva começa a cair. Levantando-se, vai até o parapeito e pára. O prédio é alto e ao olhar pra baixo uma certa vertigem lhe enfraquece as pernas. Lá embaixo, o chão pintado de chuva se parece muito à saída de seu labirinto. Ela pensa...

... que não pode ser encontrada. Aqui embaixo, na escuridão, está segura.

A certeza fraqueja com o som da maçaneta sendo girada, os passos e a presença dentro do quarto, o cheiro de cujo temor não se livrará para o resto de sua vida, e cai por completo com a mão que a agarra e puxa para fora, para a luz. Para um mundo de traumas e...

... dor. Ela acorda. A mão em seu braço esquerdo aperta e machuca. Uma força estranha invade-lhe corpo e ela empurra o homem bêbado pra longe. Com satisfação ainda o vê cair no meio da rua, antes de se atirar numa corrida desenfreada pra casa. Um lugar escuro onde se sinta segura.

Chega ao prédio e o vazio do elevador a sufoca. O emaranhado de pensamentos e lembranças desnorteia seus sentidos e ela quase não percebe quando a caixa de metal pára. As portas se abrem e ela cambaleia pra fora. As mãos tremidas mal conseguem abrir a porta. Entra no quarto fechando a porta atrás de si sem perceber que passara pela mãe sem cumprimentá-la. Senta-se na cama e, finalmente, chora.

Sentada na cama ela assiste o mundo pela janela aberta. Certa vez, ainda criança, lembra-se de ter lido em um de seus livros infantis que “gotas de chuva são lágrimas que choram as nuvens”. Ela gosta de sentar-se à janela, sozinha, e observar a chuva cair. Ver pintada nas nuvens a cor de suas tristezas. Acompanhar cada gota que cai, em sua trajetória rumo ao Solo. Ver-lhe desintegrar o pranto e encharcar-se nele como um pai, um amigo. Alguém que se importa.

Hoje, livre da inocência infantil, ela inveja as nuvens por terem alguém em quem desfazer suas tristezas.



É essencial ter alguém pra desfazer nossas tristezas...

Abraços!!!

Domingo, Junho 11, 2006

O que Dizer de Um Sorriso..

Brigou com sua vontade de sorrir. Acordou de manhã e pensou: “Sorrir pra que? Pra quem? Quem merece esse esforço?” Buscou na memória a resposta que sabia não iria encontrar. Imaginava o esforço que tinha feito em sua vida para transparecer algo que não era, sorrindo sem vontade, sem motivo e só agora via a verdade: Ser quem se é e o que se é realmente vale muito mais a pena. Doa sempre a quem doer.

Trouxera da noite o peso de um longo sono sem sonhos que não o recuperara do cansaço. Cansado estava, de tudo e de todos. O sono não descansa olhos cheios de lágrimas e vazios de alma. Tinha raiva de si mesmo por saber que não devia chorar. Sentia-se cercado por um mundo de pessoas que não mereciam se quer uma lágrima sua, o que dizer de um sorriso. Então, pra que sorrir? Pra que chorar? Queria parar. Decidiu que não verteria um único milímetro cúbico de lágrima ou sorriso a mais ninguém nessa vida, já que não havia nela alma viva ou morta que os retribuiria com sinceridade.

Pessoas são enormes fontes de onde jorram decepções e o coração, vítima principal dessa falta de cuidado, sofre quieto, mansinho, sem nunca reclamar direito algum. Ele fica ali esquecido num canto e, tal qual um tumor maligno, quando dói é porque a ferida já é grande e a esperança pequena demais. Passara a vida a maltratar um frágil coração em troca de nada e a dor que sentia agora era seu choro por misericórdia. Sempre é tarde para ouvirmos o choro do coração.

Olhou-se no espelho e pelas janelas de sua alma não viu nada. Nem ninguém. Só o vazio. Abriu a porta e saiu pro mundo. O sol queimava a pele de um corpo sem alma.

Segunda-feira, Maio 29, 2006

2

Às vezes as respostas para os problemas mais difíceis, para as equações mais complicadas estão bem na nossa frente.. E a gente sempre tem aquela mania incômoda de não acreditar, de não ver. Cegos e incrédulos desistimos fácil demais daquilo em que realmente acreditamos... Mas deixa pra lá, isso é assunto pra outra história..

Sentou-se à escrivaninha, lápis preto na mão e a intenção clara e decidida na cabeça de escrever-lhe tudo o que sentia. Há muito tempo adiava esse momento com medo de não saber o que escrever ou como escrever. Temia que o papel branco à sua frente engolisse sua vontade de se expressar, de se desnudar em palavras àquela que lhe atormentava os pensamentos. Tinha a plena certeza de que não conseguiria passar das primeiras letras simplesmente porque, sabia, nunca tivera intimidade com elas.

Não se envergonhava disso, pelo contrário: Desde que conhecera os números e descobrira com deslumbre os segredos da matemática, nenhuma outra forma de expressão jamais lhe interessou. Via neles a magia que lhe faltava à vida, sua simplicidade lógica e sempre coerente mostrava-lhe o sentido que jamais encontrara nas palavras. Aliás, por essas últimas sempre dedicara especial desprezo. Não entendia e preferia não confiar em uma linguagem que a seu ver era um convite à falsidade em duplos e triplos sentidos, que dizia ser o que não se era e que sempre era o que nunca se dizia. Às letras dedicava o papel de coadjuvantes em suas equações.

Passara então a adotar os números como principal linguagem de comunicação, expressando-se em palavras o mínimo possível. Assumiu vícios matemáticos de linguagem, desenhando expressões capazes de responder às mais variadas indagações e necessidades. Sabia e pouco lhe importava a opinião dos conhecidos, que acreditavam ter ele perdido o juízo. Jamais dava ouvido às provocações e nunca prestou atenção nos dedos que lhe apontavam na rua, tachando-o de louco intransigente. Não dava o braço a torcer: Queria mostrar ao mundo que a beleza escondida por trás dos 10 algarismos numéricos, superava em muito a abstrações representadas pelas 23 letras do alfabeto que, mesmo com 13 símbolos a mais, jamais desvendariam com tanta propriedade e simplicidade as verdades universais que os primeiros desvendavam.

Passava horas sozinho no quarto de estudos deduzindo equações que, segundo seus cálculos, contavam com precisão assombrosa o número de estrelas no céu, mediam o volume de água de todos os oceanos e ofereciam explicações matemáticas para todos os fenômenos naturais que assolavam o mundo, dando-lhe ainda a capacidade de adivinhar a data em que ocorreriam e o número de mortos e feridos dos piores acidentes aéreos, marítimos e terrestres da história. Além disso, gabava-se por poder prever em números, quantas vezes é preciso se apaixonar antes de se encontrar a pessoa certa e, quando isso acontecer, a quantidade de calorias perdidas no esforço de mantê-la junto a si.

A crença irracional no poder quase que sobrenatural das equações foi fatalmente abalada quando, contrariando as mais otimistas previsões, a pessoa certa, àquela por quem agora enfrentava o doloroso desafio das palavras, bateu sem avisar à sua porta, procurando por aulas particulares de matemática. Não houve amor à primeira vista, tal coisa, é sabido, não existe. O que houve foi uma identificação à primeira vista. Uma certeza inexplicável de que ali parada à sua frente encontrava-lhe a desgraça e a redenção da vida.

Foram meses de provações e sacrifícios. Ela precisava de ajuda nas provas finais e o cálculo era sua maior dificuldade. Ele a ensinava com paciência, mas o desejo desesperado de alongar ao máximo a duração das aulas, na esperança infantil de tê-la mais perto, confundia em si a vontade de ajudar, dificultando nela o aprendizado daquilo que, a seu ver, reunia em 10 símbolos tudo que de mais indecifrável existia no universo.

Nele crescia a cada dia o desejo intenso de declarar-se apaixonado. Ao mesmo tempo, no entanto, fechava-se ainda mais dentro de sua própria existência, numa tentativa desesperada de traduzir em equações a enorme bola de fogo que queimava em seu coração. O músculo vivo dentro do peito clamava-lhe respostas que não tinha e não conseguia encontrar, e na ponta do lápis o resultado impossível retornado era sempre o mesmo: 2.

Vendo o tempo escorrer por entre seus dedos como grãos de areia de um deserto que deixava de ser infinito, desistiu de esperar que o entendimento que se resignava em encontrar-lhe os pensamentos desvendasse em luz o mistério e, desvencilhando-se das garras de um orgulho já muito ferido, sentou-se à escrivaninha, lápis preto na mão e a intenção clara e decidida na cabeça de escrever-lhe tudo o que sentia.

As palavras são bestas selvagens e o escritor, caçador incansável, domador valente. Não sabendo por onde começar, viu à frente o fim do caminho que se abria. O lápis preto toca o papel em branco e a batalha começa...



Abraços!!!

Sexta-feira, Maio 26, 2006

Loucas Coversas



Um presentinho da dona Liz pro Doutor Onde deixei as Palavras...

Onde deixei as palavras - Então dona azeitona eu entendi... E pode deixar que de vez em quando eu brilho por ai viu... Mas só de vez em quando....(escrever coisas legais... só quando eu estou procurando as palavras... o pior é que eu não to encontrando elas há algum tempo já...).

Liz Atômica - Onde deixei as palavras busque-as com carinho. No lugar onde você menos imaginar, lá irá encontrar.

Ás vezes esquecemos que as coisas mais simples da vida são as mais bonitas e raras...

Um diamante só tem o valor imenso, pelo fato de ser lapidado, assim como as pessoas com as palavras, elas só soam bonitas quando forem simplesmente lapidadas com carinho.

Não se afobe, logo em seus sonhos aparecerão as verdadeiras palavras.

Onde deixei as palavras - Liz Azeitona, procurei palavras em lugares longínquos, em sonhos distantes, porém elas não estavam lá. Carrego comigo a simplicidade, porém elas têm me dado as costas ultimamente, me colocando frente a frente com a complexidade algo tão incomum em minhas palavras. Palavras valem mais q diamantes pelo simples fato de diamantes serem belos aos olhos e palavras belas ao coração, mas como lapidar palavras com essas mãos tão brutas? A resposta está por ai em algum lugar... Perdida.

Liz Atômica - Sim, sim, sempre precisa, precisa só ter mais coragem, deixar o medo no armário, e ser feliz colocando as palavras, quaisquer que sejam, assim, quem sabe, algo meio sem nexo, com ou sem vida, saltará do papel e irá aparecer em algum coração desavisado.

Onde deixai as palavras - Às vezes a coragem é pequena e o medo acaba se sobressaindo. Colocar palavras no papel nem sempre é um sinal de felicidade... Felicidade amiga q deixa saudades se mudou pra longe levando consigo as belas palavras. Do papel para um coração desavisado? Ou de um coração cansado para o papel? A resposta... Mais uma vez... Difícil de encontrar...

Liz Atômica - O papel nos confunde, nem sempre sabemos o que somos. Será que um dia saberemos?

Trocamos atos falhos, nem sempre sabidos. Sabedoria, quem a tem? Me conte um conto... Um conto pode ser o que te falta para comprar aquela caderneta... Para escrever seus sonhos rascunhados, muitas vezes escritos em guardanapos em algum bar da esquina... Desavisado, esquece que sonhar é pra todos... O coração anda a vagar por algo ou alguém... Eu continuo aqui sentada esperando...

Onde deixei as palavras - Papel amigo de madrugadas, ouve as angústias de um coração cansado. Sabedoria? O coração não é sábio ele apenas escolhe... A caderneta me acompanha fiel, só não sei se as palavras rudes despejadas por esse coração fazem jus a essa fiel companheira... E eu continuo sentado esperando... Mas será q esperar é o certo? Às vezes é necessário mandar o coração à luta...

Liz Atômica - Lutar pelas causas que acreditamos corretas... Honestas ao seu ver, ao meu, aos outros pouco importa. O que importa é acreditarmos em algo e lutarmos, sempre. Com o coração, com a vida. Darmos tudo e recebermos nada em troca? Quem sabe um sorriso, um olá, um afago. Certas coisas não têm preço, o que queremos? Liberdade, sermos livres para amarmos e vivermos do jeito que quisermos, sem ter pressa da opinião, do mundo, do medo, sem ser refém do sistema, sem ser refém de nós mesmos. O jeito... Lutar, SEMPRE.

Onde deixei as palavras - Liberdade? Vivemos na gaiola chamada mundo... Só podemos lutar por um espaço maior dentro da gaiola. Por isso eu sonho, no meu sonho eu sou livre, lá é um lugar onde eu tenho minhas asas, dar e não receber nada em troca no meu sonho isso não existe, lá a gente vive sorrindo, mas lá acaba qdo eu acordo... É um coração cansado escrevendo palavras tristes... Com licença vou sonhar e já volto..

Domingo, Maio 21, 2006

Diálogos...

Às vezes nem nossos scraps escapam..

LA: Azeitona virou azeite que está encaixotado em uma bela caixa de madeira rumo. Foi comprado por um charmoso francês e está de viagem para a França.
O francês, um chef de cozinha irá fazer delicias com o azeite raro encontrado aqui, descobriu ao degustá-lo que uma forte e graciosa sensação pairou em seu ser...
Nunca irá abandoná-lo..

CdP: Insultado, akele que um dia foi cover de algo, mas que agora se sente sem inspiração, perdido num emaranhado de palavras sem forma ou sentido, resolve escrever um recado à altura da frutinha da oliveira. Ele tem medo e os dedos tremem procurando as palavras escondidas nos botões do teclado. Sua luta eh feroz, sua vontade, enorme, mas as palavras não vêm, orgulhosas e cheias de vida própria, teimam em não se deixar dominar. O cover do poeta, escondido sob as sombras do esquecimento e da falta de inspiração, olha o espaço em branco na tela à sua frente e tenta adivinhar os lindos versos que o preencheriam, se um simples imitador deixasse de ser. É em meio a esse turbilhão de pensamentos, que algumas poucas letras são pescadas, alimentando seus versos com as palavras que acabas de ler. Espera quem sabe ter-lhe satisfeito, e um pouco de poesia em sua vida ter colocado por que afinal, como lhe mostrou uma certa Azeitona Adormecida: Não eh preciso ser poeta de verdade pra ser poético.

LA: Não se insulte,
Não se turbe,
esqueça as tristezas, coloque de lado as maldades.
Separe em um vidrinho a alegria, coloque-a dentro da bolsa. Leve para cima e para baixo.
Desafios sempre bem vindos somos covers da vida, coadjuvantes do tempo, admiradores da tempestade,
é a loucura da vida acaba distraindo os nossos sinceros sentimentos...

CdP: Guardo tudo, todas as minhas alegrias andam comigo. Nunca me separo delas, são suas lembranças que impulsionam, que movem. Mas aí vem o descanso, a noite, o sono e são nesses momentos, quando o corpo dorme e as defesas são baixadas, que os pensamentos me traem e as incertezas, as mágoas e aquelas velhas dores de sempre pegam o coração desprevenido. Realidade nua e crua repleta de crueldade por todos os lados...
Mas não hj.
Não agora.
Que nessa fria noite de domingo a felicidade mostre pra gente que nem todo o sonho não eh realidade e que hoje, e sempre, é necessário sonhar...

LA: Sonhar!!
Por que, por onde, por quanto??
Tem preço, tem peça, tem praça?
É dormir sempre, é a esperança de um belo sonho, acordar para que??
Ela se pergunta, sempre.. Seus sonhos são belos, fantásticos, povoados de amor e alegria...
Realidade, tristezas e mentiras. Tanta covardia
Quando menos espera... Tibum
Clique, seu coração se apaixona
Ahhh, sonhar...

CdP: Na verdade, na verdade, a gente nunca sabe direito quando termina o sonho e começa o sono. Aí eu paro, olho em volta e penso: "Será?" O sonho cansa o sono e acordo achando que dormi o bastante, tah na hora de acordar. Mas aí os olhos pensam: "Pra que? Se eh dormindo que a vejo e ela me vê? Se eh sonhando que ouso dizer o que não penso e penso em dizer tudo oq falo? Melhor continuar dormindo e continuar amando..."

LA: É por essas e outras que a borboleta escolheu continuar dormindo, não mais acordar.
Quero a bravura da pequena voadora.
Prestar atenção nos perfumes e quando encontrar aquele encanto,
Dormir, não mais acordar.
Nas cores e nas asas descobrir que a vida pode ser bela, mesmo deixando um pedacinho do mundo de lado para desbravar outro.
Adormecer, sonho tanto com isso.
Hoje durmo, acordo, durmo, acordo.., Nada sonho e em tudo penso... Quando vejo é manhã, cinzenta, sem sol, sem brilho, sem luz
O que ilumina, uma pequena lampadinha, como um vaga-lume a vagar pelas bandas co coração.
A pensar, onde estará os olhos cantantes apaixonantes que desabrochou um pequenino sentimento a buscar no ser voante???
Onde estará??
Durma, quem sabe encontrar...

CdP: Fica difícil.. Difícil encontrar quando a gente procura. Olho em volta e só vejo o que naum quero, oq passou, não tem importância. O que procuro, naum encontro, me encontra. Um dia vem e sei que qdo chegar não estarei pronto. Acostumado em dramatizar a realidade, não conheço a realização, eh pessoa estranha. Aí ela vem, me pega de surpresa e me derruba num clique, meu coração se apaixona e o resto de mim chora, por saber que coração naum pensa, sente.

LA: Sente.
Acanhado, com cuidado e temeroso,
Anseia por um riso, um gesto.
Alimento, para a alma, para a vida.
A vida que está cansada de não ter motivo para viver e quando sento, boom!
Lá vai, algo mais, um motivo, sem saber corre um gás, uma força para se manter vivo, inquieto.
Percebe que sofre, que ama, que chora.
Medo de não encontrar... Platônico os olhos, o cheiro de sombras vive até o próximo encontro..

CdP: Ansiedade, mãos geladas, suadas, sem cor. O dia se aproxima e a luz jah vem brilhando. Ilumina trevas e vivifica velhos dramas empoeirados no armário. Limpa as traças do tempo e perfuma cheiros de belas flores impossíveis. O coração jah vai sonhando o encontro e o sopro agora eh de vida, eh bater mais forte, livrar-se do corpo, da alma. Cansei do amanhã! Quero hj oq nunca tive ontem. Quero agora porque depois... Tah longe...


Abraços a todos e beijos à Dona Liiiz Azeitona (Atômica)....

Sábado, Maio 13, 2006

Subway Story...


Início de noite. O olho no relógio vê que para as sete, meia hora. Na cabeça, contas rápidas sugerem calma, vai dar tempo. Os segundos nos ponteiros dizem não, passam rápido, urgentes.

À volta, rostos cansados pedindo casa, família, jantar, televisão, cama. Sinto uma certa cumplicidade por eles. Entendo seus desejos por saber que são também os meus. A viagem para casa é sempre longa. A ansiedade de chegar torna os passos grandes jornadas.
O trem chega trazendo alívios de “Até que enfim!” e a lufada de ar que me atropela é brisa para o meu rosto cansado. O carro pára e a porta se abre bem à frente (acertei de novo!), de dentro o ar gelado do ar-condicionado é arrepio nos meus braços. A multidão represada do lado de fora inunda o espaço aberto e em poucos segundos somos um com o trem em movimento, respirando o mesmo ar gelado que não demora em tornar-se fogo à nossa volta.

Com uma das mãos me esforço em alcançar o livro dentro da bolsa. Ele vem fácil e de suas páginas vejo saltar um mundo que me encobre os olhos, vestindo a realidade de poesia. Vivo agora nas palavras apaixonadas do amor eterno de Florentino Ariza por Fermina Daza e de lá a vida de outrora me parece distante, sem graça.

Sou despertado de repente pelo abrir de portas do vagão. Estação Consolação. Mais pessoas se espremem trem adentro, tornando o espaço ainda mais desconfortável e o ar, rarefeito. Em meio à confusão, mau a percebo entrando e quando dou por mim, lá está, parada bem à minha frente. Nossos olhares se encontram, em meio a tantos outros. Um segundo apenas que lentamente se transforma em dois e um sorriso envergonhado ao qual, encantando, não resisto: Desvio o olhar. Sinto seus olhos sobre mim e o medo rapidamente transforma-se em terror. Desespero por não saber o que fazer, como reagir.

Finjo estar lendo, mas as palavras se embaralham no papel. Tento, mas não consigo mais encontrar refúgio nas páginas que me parecem agora uma confusão de letras sem sentido e meu autocontrole é traído pela enorme atração que aquele olhar exerce. Volto a fitá-la e a percebo tentando descobrir o adversário que conseguiu, mesmo que por alguns segundos, manter meus olhos longe dos seus. Levanto um pouco o livro para que ela possa ver com mais facilidade, em sua capa azul, que meu amor vive nos tempos do cólera.
Mais um encontro de olhares.

Mais um sorriso.

O brilho das estrelas de repente começa a fazer sentido.

Estação Trianon. O sorriso se desfaz. O encanto evapora. O coração chora ao vê-la sair, abandonando para sempre as linhas da sua história. Um último esboço de reconhecimento ao vê-la subir as escadas rolantes. As portas se fecham, o trem parte veloz. Do paraíso, à frente apenas a estação.

O livro se abre e de letras brotam sonhos. No relógio, minutos e segundos brincam de pega-pega.



Abraços a todos!!

Segunda-feira, Maio 08, 2006

Aceito sugestões, não encontrei um título para essa linda história!!


Pequenina e colorida, suas asas brilhavam ao voar. Gostava de desbravar novos lugares, mesmo sabendo que correria perigo, não se importava com o que os outros diziam. Só havia um problema, sentia falta de alguém para compartilhar suas idéias e seus sentimentos.
Voava por aí, algo lhe chamou a atenção, um perfume doce e delicado, não sabia de onde vinha. Começou a prestar a atenção e a pousar em cima de cada flor que encontrava, mas nada que pudesse ajudar a borboleta a encontrar aquele delicado olor.
Até que, em um cantinho, escondida estava um rosa envergonhada, triste por sentir-se rejeitada, ninguém ali pousava ou parava para admirar sua beleza.
A pequena encantada, pára, observa e resolve chegar mais perto, precisa entender o porque do sentimento de carinho e encanto sentido por aquela flor.
Cada chegada mais perto, seu coração pulsa mais forte, acaba entendendo que o que acaba de sentir por aquele ser é amor, não aceita. Se chateia, pensa. Sou apenas um serzinho voador, não sou uma rosa para poder amá-la, nunca isso daria certo, como pode uma borboleta por uma rosa se apaixonar???
Não entende que esse mesmo sentimento desabrochou na envergonhada rosa. Ela por sua vez, para demonstrar o que sente, exala o seu melhor perfume.
A borboleta tenta se encorajar, quem sabe eu me declarando ela aceite meu humilde amor, bem nessa hora de coragem, percebe borboleteando a rosa que abaixo das belas pétalas existe pequenos pontinhos que machucam, fica com medo, ali adormece.
Acaba sonhando, algo mágico acontece. Enxerga no seu sonho sua amada rosa borboleteando, tudo é possível. Juntas formam uma dupla de risos e cores. Decide não mais acordar.

Quinta-feira, Maio 04, 2006

Festa de Aniversário Parte II


É, tá grande mesmo eu sei. Não se assustem não. Ela merece...

Muitos de vocês podem estar pensando: “É muito fácil mudar a história quando bem entender, manipulando-a para que termine da maneira que se deseja. Isso não faz com que ela passe a fazer sentido. Na verdade isso só prejudica o bom entendimento da mesma”. Bom, devo confessar que entendo perfeitamente aqueles que pensam dessa maneira. Sei que muitas pessoas simplesmente não conseguem apreciar histórias nas quais não vejam sentido em cada passagem. Aqueles que, como eu, apreciam muito mais o espírito, ou o significado transcendental das palavras no papel, podem encontrar nessas pessoas um enorme grau de falta de sensibilidade. Eu peço, no entanto, caros amigos, que não pensem dessa forma, que não se curvem ao preconceito e muito menos à intolerância. Algumas pessoas precisam entender a mágica da vida para poder senti-la e isso não é de todo ruim. Resistir a acreditar no impossível deve ter alguma utilidade. Não sei dizer ainda qual, mas deve haver.

De onde teria vindo aquela ligação telefônica? Quem seria o intruso misterioso que inesperadamente surgiu nas linhas da história de nossa solitária personagem, que apenas por ser única pode ser chamada principal? Vamos às respostas.

Ouvido encostado à porta ele escuta atentamente os sons vindos do outro lado. A madeira fria é a barreira que lhe separa a vida de sua cor: A primeira aqui fora, desesperada por entrar e a segunda lá dentro, presa no colorido castanho dos olhos daquela que canta “Parabéns pra Você” ao telefone. Ele percebe, não sem violenta palpitação, que o momento crucial, o clímax de seu estratagema se aproxima. O dedo sobre o botão da campanhia formiga num misto de excitação, medo e ansiedade. A dúvida que lhe atormenta é enorme pedra de gelo dentro do estômago. Seus pensamentos são levados ao começo de tudo, àquele segundo perdido num passado aparentemente longínquo, quando avistara pela primeira vez o par de olhos castanhos que desequilibrariam num passe de mágica a cadência segura dos pulsares do seu coração. Fora seu último segundo de felicidade. A partir daquele momento descobrira, desolado, o significado da palavra solidão.

Voltou para casa hipnotizado pela visão que tivera. Ao entrar, fechou a porta atrás de si e foi como se tivesse mergulhado num oceano desesperadamente pacífico, noite escura, água gelada e o vazio cercando-o por todos os lados. A solidão que sentia era tão real que quase podia agarrá-la com as mãos. Sua onipresença não lhe deixava refúgio, estava em todos os cantos do quarto, da sala, da cozinha, do prédio, do mundo. Imaginou que jamais seria completo de novo se não tivesse aquela mulher, porque ela, mesmo sem o saber já o tinha.

O coração é o único que tem poder verdadeiro pra mudar uma pessoa. Ele conhece os pontos fracos, os lugares certos e principalmente os errados e é neles que cruelmente coloca suas armadilhas. Tornou-se então a antítese do que havia sido até então. Passou a viver a vida dos introspectivos, vendo um mundo que só seus olhos viam e sonhando passeios de dedos entrelaçados, conversas intermináveis ao telefone e abraços apertados de não querer largar.

Descobrir onde moravam os olhos castanhos não foi mais difícil que descobrir seu telefone ou ainda o dia do seu aniversário. O “como”, não faz diferença. O que realmente importa é a decisão, a iniciativa. Só quem ama ou já passou por uma experiência de amar sabe disso. Quantos amores não viram a luz da realização e morreram antes mesmo de começar, pela maldita falta de iniciativa? Coragem de dizer o que se sente é moeda rara.

A decisão veio repentinamente como, aliás, a maioria das grandes decisões vêm. Precisava chamar atenção, mostrar que estava ali. Ele percebia a profunda tristeza que residia por trás daqueles olhos e o desejo de se mostrar presente camuflava na verdade uma imensa vontade de ajudar, de dar cor, de fazer reluzir um fio de felicidade naquela vida que lhe parecia tão escura. Sua imaginação, cheia de habilidades, tentava desesperadamente criar uma forma de estabelecer contato.

Em cima da mesa havia um papel de propaganda que encontrou colocado sob a porta de entrada pela manhã. Distraído alcançou-o, começou a ler o que estava escrito e, súbito descobriu o que fazer. Pegou o telefone e discou o número indicado. A operadora atendeu e ele fez o pedido: na tarde do dia especificado, uma certa pessoa receberia num telefonema, uma mensagem de feliz aniversário.

Seu plano, no entanto, não pararia por ali. Ele queria estar lá quando ela recebesse o telefonema. Queria dar-lhe o buquê de flores que nunca recebera, devolver-lhe o abraço que lhe pertencia e dizer-lhe que era só com ela que queria escrever as futuras linhas de sua história. Desejava mostrar-lhe em palavras e principalmente em gestos, que a vida sem ela tornara-se um vazio de solidão interminável.

E agora cá estamos. Numa posição privilegiada observamos a cena. Buquê de flores em mãos, nervosismo dissolvendo-se em gotas de suor que lhe escorrem pela testa e o coração em incontroláveis convulsões de desespero, ele espera a hora certa. O momento se aproxima. Já pode sentir a felicidade. Sua proximidade é tamanha que uma certeza de que poderia agarrá-la se esticasse as mãos através da porta fechada, o faz querer apertar o botão o mais rápido possível. Do outro lado, a música acaba. As palmas cessam de bater. No silêncio carregado de emoção, o som do clique do fone sendo colocado no gancho é o sinal claro de que precisava. É agora.

Por um instante ele pensa em desistir. Um instante apenas de terror que passa na velocidade de um suspiro. O dedo sobre a campainha faz a pressão. Ouve-se lá dentro o soar dos sinos de seu julgamento. Pensa em fugir, mas sabe que agora é tarde, não há mais volta. Alguns segundos e passo hesitantes se aproximam da porta.

“Quem é?” – Uma voz cheia de dúvidas pergunta.

Ele diz-lhe seu nome. Ela o conhece é claro, e isso só a impele mais fortemente a perguntar:

“Você? O que foi? Algum problema?”.

Ele explica que precisava falar-lhe apenas. Era importante.

“Tudo bem. Só um minuto”.

Vagarosamente a porta se abre. Uma mão, fios de cabelo, um rosto. Nos incríveis olhos castanhos, a desconfiança.

“Pois não?”.

Ele mostra os presentes que trouxe.

Primeiro o buquê de flores.

Depois, o coração.

Surpreso, uma mão o convida a entrar.

Um simples passo que o leva pra dentro do sonho, transmutado em doce realidade.


FIM!!!


Quarta-feira, Maio 03, 2006

Um pouco de outros

O que vocês leram hoje, não tem nada de Liz e sim do pai do psicodrama.
Fiquei muito emocionada quando o li.
Graças a minha amiga Stella posso compartilhar desse belíssimo texto com vocês....
Estou totalmente sem palavras para descrever o que sinto sobre ele, então por favor deixem os seus comentários e boa leitura. E peço desculpas por não saber o título do poema, se é que ele o possui.

“Um encontro entre dois: olho no olho, cara a cara
E quando estiveres próximo tomarei teus olhos
e os colocarei no lugar dos meus,
e tu tomarás meus olhos
e os colocarás no lugar dos teus
então te olharei com teus olhos
e tu me olharás com os meus.
Assim nosso silêncio se serve até das coisas mais
comuns e nosso encontro é meta livre:
O lugar indeterminado, em um momento indefinido,
a palavra ilimitada para o homem não cerceado.”

J. L. Moreno


Domingo, Abril 30, 2006

Retratos....




Um retrato na parede.Um sorriso apagado,o olhar vago distante.
lembranças, medo, angustia,solidao,passado,tristeza.


tempo.............................


o retrato foi substituido.Um sorriso timido vai se formando.um brilho no olhar.
Riso,alegria,leveza,sensibilidade,felicidade.
Vida.......

Sábado, Abril 29, 2006

Festa de Aniversário Parte I


Olhou pela janela entreaberta e lá fora viu o céu azul, límpido, sem nuvens e pela primeira vez ousou imaginar viver algo além daquilo que conhecia. Aquela era a única entrada para a luz (vida?) do mundo e o contraste entre essa luz e a escuridão que banhava o quarto onde estava era um retrato perfeito daquilo em que se resumia sua vida: Fora sempre personagem secundária, nunca assumira qualquer papel significativo, sendo obrigada a tornar-se espectadora de sua própria história. A felicidade a que assistia pela janela permanecera sempre lá fora e a luz do dia não fazia parte da sua realidade.

Era seu aniversário e essa data lhe enchia de desânimo. Estava sozinha e, como sempre, era assim que comemoraria o dia de seu nascimento. Um misto de tristeza, desesperança e revolta tomava-lhe conta, mas nada conseguia fazer que pudesse amenizar-lhe um pouco a dor de sentir-se esquecida. Sentada na beira da cama, baixou os olhos em direção às mãos estendidas sobre as pernas e o que sentiu quando as viu ali sozinhas, calejadas pela falta de carinho, atingiu-lhe o peito com uma forte estocada: Nunca tivera outras mãos nas suas. Na sua cabeça, nunca houvera a necessidade, sempre convivera bem com a solidão, mas agora o coração lhe cobrava os anos de indiferença de uma só vez. Pela primeira vez percebeu-se só, suas mãos vazias lhe mostravam isso e, sem entender direito o que acontecia, sentiu no rosto o calor úmido das lágrimas que a muito vinham sendo guardadas, esperando aquele momento para se libertarem de sua prisão de esquecimento.

Não conseguiu se controlar. As mãos tremiam. Os lábios tremiam. O corpo inteiro tremia, num desespero insano de furacões. Não teve mais pudor. Não queria mais guardar para si aquilo que a tantos anos atormentava-lhe a alma. Chorou. Chorou lágrimas que ser humano algum jamais havia chorado e a dor contida nelas era tão grande, que o mundo inteiro se enterneceu. O sol escondeu sua dor atrás de nuvens acinzentadas de chuva, o céu escureceu-se e derramou seu pranto na forma de grossas lágrimas de tempestade. A calamidade se espalhou por toda a terra.

As pessoas ignoram que o maior alimento para as tristezas do mundo é a indiferença. É preciso dizer que se ama. Mostrar que se ama. Provar que se ama. Nossos sentimentos de apreço nunca devem ficar guardados dentro de nós, porque nunca sabemos quando e o quanto alguém que amamos precisa receber isso de nós. Somos seres deficientes, necessitados de atenção. As maiores calamidades de nossa história são causadas por corações partidos.

Não é necessário muito para se curar um coração que chora. Um gesto simples pode dar conta do recado. No caso desse coração que estamos a conhecer, a cura poderia vir por meio de um simples telefonema, por exemplo. Um telefonema de alguém inserido na história de forma deliberada e repentina, especialmente criado para essa função. Como quem conta tem sempre o direito e o poder para mudar a sorte dos personagens quando bem lhe entender, reservo-me a vontade de mudar a história de forma sutil e no entanto decisiva, sob o pretexto acredito incondenável de se trazer um pouco de preenchimento a uma vida que se encontra vazia. Se é o amor o melhor remédio, quero usar o meu poder de criador para receitar e aplicar nessa pobre alma preta-e-branca, uma dose que a pinte de arco-íris. Sendo assim:

O telefone tocou. Ela parou. Achou estranho. Isso não acontecia com freqüência. O aparelho era uma simples peça de decoração sobre o criado mudo do quarto. Pensou em não atender. Seria mais um engano ou talvez alguém tentando lhe vender algo. Cansara-se de ter ilusões com relação às pessoas que conhecia. Todas tinham seu número, mas nunca ninguém havia perdido alguns segundos do seu tempo com ela. O toque era insistente. Uma força estranha a fez levantar-se, ir até o aparelho e tirá-lo do gancho. Do outro lado da linha, de algum ponto distante o suficiente onde sua imaginação não conseguisse alcançar, uma voz masculina perguntou quem era. Ela respondeu hesitante e a voz pediu-lhe um segundo. Sua curiosidade daria até mesmo dois.

Um clique.

Um coro de vozes celestiais inundou o fone.

“Parabéns pra você...”

A canção lhe era conhecida apenas pela televisão e pelas vezes em que a tinha ouvido sendo cantada por vozes nos apartamentos vizinhos, quando inconscientemente sonhava com o dia em que seria seu nome aquele chamado ao final, acompanhado de palmas e risos de alegria.

Seu peito foi tomado por um sentimento dominador, sufocante, que crescia e parecia prestes a explodir. Suas lágrimas que só conheciam a existência por meio da tristeza secaram e os lábios crisparam-se de um modo que não faziam a muito tempo. Um sorriso. Seus olhos brilharam e a luz que deles se lançou, iluminou todo o quarto, banhando o preto-e-branco de cores impossíveis.

Não sabia, mas a felicidade lutava bravamente na difícil tarefa de instalar-se no desconhecido mundo que era aquele jovem coração ressequido, dando vida a seu espirito atrofiado. Sem perceber, cantou para si mesma as “muitas felicidades” e os “muitos anos de vida” da canção, num tom de voz até aquele dia desconhecido de ouvidos humanos.

O sol saiu.

Crianças brincavam na rua. Risos alegres ecoaram pelo mundo, entrando com ares de renovação pela janela entreaberta do quarto.

Mais um coração descobrira o doce sabor da felicidade.



ps.: Tô cada vez mais feliz pelo número de pessoas diferentes que têm entrado no blog e comentado os textos... Muito obrigado mesmo gente..
Abraços!!

Quinta-feira, Abril 27, 2006

Sonhos da Menina


A menina acorda, sonhou com tudo o que deseja. Lá encontrou a Felicidade e perguntou a ela se seria feliz, ela então bravamente disse
- Não te preocupes menina a felicidade te acompanha todos os dias, preste mais atenção. Deixe de lado o negro da tristeza e comece a ver que por onde você olha há a cor da alegria, os rastros são delicados e singelos, é necessário atenção e abrir as portas do coração. Menina deixe de sonhar dormindo e acorde para o sonho.
Isso ficou durante o dia inteiro no pensamento desse ser frágil e inquieto. As palavras de Dona Felicidade a perturbava. Não entendia como a alegria podia estar ali, sempre. A crinaça crescida não sabia como sobrevivia, não encontrava os porques das suas dúvidas, em sonho conseguia todas as respostas. A única coisa que ansiasa era dobrar uma esquina qualquer e ali encontrar as respostas concretas que figurariam na vida real, não mais naquela fáubla vivida em seus mais belos e ternos devaneios....

Terça-feira, Abril 25, 2006

Lágrimas de um coração sofrido


Onde está a saudade?

Sinto que um pedaço de mim não existe mais. Está em busca da solução de uma pendência, que esmaga o coração e põe a baixo à razão.
A razão que neste pequeno ser parece não existir, ás vezes teima em aparecer, no entanto a voz do coração sempre fala mais alto, deixando de lado a objetividade e a simplicidade, dando lugar à complexidade e emoção.

A porta bate, alguém quer entrar e em meio a lágrimas tento dar um passo, as pernas encontram-se travadas, nem um movimento, tanta dor, não obedecem mais o corpo,e assim baixinho, o som do bater vai sumindo, até não restar resquícios de que um dia houve um bater de porta.
As lágrimas não cessam, não adianta esforço. A impotência dessa pequena alma torna-se amargura. O medo de o coração endurecer acaba sendo o seu pior inimigo.

Sem armas para lutar, entrega-se ao sono.

Quem sabe em sonho, alcance a solução para a vida.

Sexta-feira, Abril 21, 2006

Felicidade


Esse é um texto que escrevi a algum tempo e econtrei recentemente perdido nos meus e-mails enviados. A verdade dele ainda está tão viva na minha vida que, após algumas modificações resolvi postar. Boa leitura!

“O que é a felicidade?” Essa talvez seja a pergunta mais importante de nossas vidas. Nada de “Existe vida em outros planetas?” ou “De onde viemos?”. Nada disso realmente importa. Um dos piores males da humanidade é querer sempre se desviar do simples, buscando complicar cada vez mais as perguntas, na ilusão de que dessa forma as respostas trarão consigo algum sentido obscuro para sua existência. Será realmente que o sentido de nossa existência é algo tão difícil de se adivinhar? Será que há a necessidade de buscar cada vez mais fundo por essa resposta ou será que de tão simples, muitas vezes simplesmente não queremos acreditar?
Eu, eterno otimista que sou, prefiro acreditar na segunda opção. Teimo que a resposta é bastante simples: O sentido da existência do ser humano é ser feliz. Foi esse o principal motivo pelo qual Deus nos colocou no mundo. Para sermos felizes com Ele da mesma forma que Ele é feliz conosco. Motivos para tal temos muitos, o difícil é identificá-los. E é portanto daí que vem a minha pergunta lá do começo, aquela para a qual dei tanta importância e que talvez agora, espero, você comece a dar também: “O que é a felicidade?”.
Tudo bem, talvez essa não seja a pergunta correta. Talvez ela fique melhor assim: “O que é a felicidade pra você?” A felicidade é simples mas exige atenção. Você tem que conhecer se quiser sentir e é por isso que ser feliz é provavelmente o maior sonho do ser humano. Se ele conhecesse o verdadeiro significado dessa palavra ou, melhor dizendo, o significado que ela assume em sua realidade individual, veria o quão fácil é ser feliz e, dessa forma, passaria a sonhar mais alto.
Tenho certeza que agora devo ter ofendido muita gente. “Como assim: ‘veria o quão fácil é ser feliz?’, Desde quando ser feliz é fácil?” Pois eu digo, repito e insisto: Ser feliz é muito mais fácil do que todos nós pensamos. Perceba antes de tudo que usei o pronome “nós”, justamente para salientar que eu também estou incluso. Tenho plena consciência de que não sou melhor que ninguém. Estou aqui apenas partilhando uma coisa que pensei e que acredito, faz bastante sentido.
A verdade é que venho pensado muito no que realmente é a felicidade pra mim. No começo, não tenho vergonha de dizer, a resposta era automática e provavelmente a mesma de muitos: Dinheiro. “Se eu fosse rico e tivesse dinheiro pra fazer tudo aquilo que tenho vontade de fazer, aí sim seria feliz.” Talvez isso fosse verdade pra mim, e talvez o seja pra você nesse momento, mas depois de refletir bastante descobri que não é mais assim. Minha felicidade e provavelmente a sua também, está intimamente ligada à realização dos meus sonhos, mas, e aí vem a grande descoberta, não só a isso. Não é necessário que todos os meus sonhos se realizem para que eu seja, finalmente, feliz. Esse pensamento me fez encarar a vida de uma forma bem diferente de até então. Finalmente percebi como é simples a felicidade e como é fácil ser feliz.
Analisando com cuidado, encontrei tantos sinônimos para essa palavra que hoje percebo que o difícil é não ser feliz. Me envergonho por estar sendo tão clichê, mas precisamos aprender a encontrar a felicidade nas coisas mais pequenas, e só assim perceberemos o quão grande e importantes elas na verdade são.
Pense bem. O que é a felicidade pra você?
Pra mim..
Tanta coisa...


Abraços a todos!!! ps.: Espero respostas nos coments...

Sexta-feira, Abril 14, 2006

A Flor...


Bom, esse aí é um sonho que andei pensando nos últimos dias. Fazia um tempo já que não postava nada. Estava com saudades. Espero que gostem...

Acordei bem cedo, inquieto. Saí pra rua buscando orientação. Andei sem destino por ruas e vielas conhecidas com meus olhos vendo o desconhecido. Não entendia o que me estava acontecendo. Percebia coisas que até então passavam-me desapercebidas. Não me lembrava de nada daquilo. A peça era a mesma, mas os atores, seus figurinos, suas falas, não eram. Algo havia mudado neles. Mas o que? Não sabia, não entendia. Andei por horas assim, sabendo onde estava, mas estranhando o jeito como o mundo se mostrava a meus olhos. Faltava esperança, cor.

Vi num farol um pobre menino pedindo dinheiro, quando deveria na verdade estar longe dali, brincando e correndo em direção a um futuro vivo. Na calçada ao meu lado, um homem jazia deitado. Inconsciente, sonhava sonhos afogados em um oceano de álcool, povoado por monstros mitológicos que engoliam os restos de sua dignidade. Onde estava o sonho? Onde estava aquele doce aroma de liberdade que o vento costumava soprar no meu rosto?

Eu procurava, mas a resposta não achava. No rosto da velha senhora vi apenas desilusão pelas batalhas perdidas no decorrer de uma vida povoada lutas. Vi armas de fogo queimando vidas inocentes que choravam misericórdia.
Súbito descobri o que ocorria. A verdade atropelou-me tal qual um trem desgovernado, me despedaçando. Percebi que estivera cego. Não física, mas espiritualmente. Meus olhos físicos enxergavam perfeitamente, eram os olhos do coração e da mente que estavam cegos. Cegos para a realidade que em desespero dançava à minha frente. O mundo chorava diante de mim implorando por carinho, por atenção. E é assim que ele faz todos os dias. As pessoas não percebem, não ouvem o clamor, ocupadas que estão com seus próprios problemas. Esquecem-se que o mal é sempre coletivo.

Decidi que era preciso dar atenção ao nosso lar, às pessoas que habitam nele, perceber suas lágrimas, mostrar-lhes que me importava e que estava curado de antiga indiferença.
Olhei em volta e encontrei o que procurava. Entrei na loja e num impulso comprei uma flor para dar ao mundo. Era linda minha flor. Em suas pétalas rosadas escrevi versos cheios de esperanças que guardava escondidos bem fundo em meu coração. Em seu perfume camuflei o doce aroma de liberdade dos ventos que dançam entre os troncos das árvores do campo. Em seu caule, forjei a sustentação que protege e dá forças para suportar as fortes tempestades de desilusão que destroem vidas, arrancando-lhes a vontade de viver. Em suas folhas, salpiquei o fresco orvalho da madrugada para aliviar as dores das perdas, dando coragem para se levantar e da luta não desistir jamais. Finalmente, em seus espinhos escondi a mais poderosa de todas as armas contra o predador da violência e da ignorância: A palavra.

Sai da floricultura com meu pacote em mãos. Ansioso, queria encontrar um lugar bem alto onde pudesse entregar ao vento a flor que daria ao mundo para que ele, o vento, a levasse ao seu destinatário. Encontrei meu lugar perfeito no terraço do prédio mais alto da cidade. Enquanto subia as escadas, imaginava como seria recebido o meu presente. Como aquele à quem destinava singela prova de afeição, de carinho, reagiria. Queria que ele entendesse que meu gesto mostrava que ali encontrava-se um alguém que se importava, que tinha sonhos e que estes não incluíam apenas o próprio bem estar, mas o bem estar do todo também.

Cheguei ao meu destino. Com o coração aos berros, como que desejando escapar de dentro do peito, dirigi-me vagarosamente à beira da amurada. O vento, meu mensageiro, cortou-me o corpo inteiro viajando rápido, na pressa de chegar ao fim das coisas. Segurei a flor alto sobre a cabeça e, após uma pequena prece, larguei-a. Em segundos vi-a alçar vôo rumo ao horizonte, perder-se no infinito, voando segura nos braços daquele a quem confiei a entrega.

Não sei se o mundo recebeu meu presente. Não sei qual foi sua reação. Hoje, ao andar pelas ruas, ainda vejo as mesmas coisas que vi aquele dia. As mesmas injustiças, a mesma falta de esperança. Tenho consciência de que eu sozinho não posso mudar um mundo inteiro, não está em minhas mãos esse poder. O mal é sempre coletivo e dessa forma, o bem também deve ser. No entanto, ao descer as escadas do prédio de volta à minha vida e à realidade, me senti realizado, pois descobri que é nos simples gestos individuais que se esconde o caminho para a solução, para a cura. Um ato de carinho, por mais humilde que seja, jamais será perdido ou esquecido e é a sua lembrança que poderá um dia encher de luz a escuridão que encontramos nas ruas e vielas do mundo.

Basta começar...



Abraços a todos!!!

Quarta-feira, Abril 12, 2006

Sonhos


Escrever sobre amor? Uma cabeça boa e um coração abatido. Não nada de amor.

Escrever sobre felicidade? È ultimamente ela passa e dá bom dia, nada alem disso.

Saudosos tempos onde a felicidade estava naquele baú guardada com tantos brinquedos.

Mais palavras jogadas, no fundo elas tem sentido. Porque não escrever sobre os sonhos? Não o pãozinho recheado das confeitarias, apesar de ser muito mais fácil de buscar.

Sonhos. Ando com vários deles nos bolsos, às vezes eu acabo perdendo, acho que foi no ônibus algum batedor de sonhos me furtou. Quer comprar meus sonhos? Não estão à venda. O preço deles só eu posso pagar. Realização.Essa é a moeda corrente no mundo dos sonhadores.Um ponto final em cada olhar, notas desafinadas em sorrisos mecânicos, não há mais poesia por trás das palavras. Os sonhos estão cada vez mais distantes.O olhar deve ser um caminho sem ponto final.Basta deixar os sonhos saírem do travesseiro.È isso. È apenas isso.

Sábado, Abril 08, 2006

Algo a mais

Lhe amar é algo que não sinto mais

Apenas, você é, e está dentro de mim

Não é mais uma pessoa que amo muito

É simplesmente eu dentro de mim



Mas se fosse para te amar, o que não faço

Lhe digo em verdade que ninguém amou assim

Que nunca houve amor mais sadio e doentio

Que jamais haverá outra em meus dias loucos



Sempre te amei, durante e mais do que tudo

Mais que um Rei amou o seu povo brilhante

Mais do que um Papa amou a Deus, oh, perdão

Mais que eu já amei a mim como um todo inteiro



Amor, mais que amor, sê minha sempre

Serei seu até que me diga para ser seu

É minha, você, Camila, deusa de meus sonhos

Santa e Rinha de meu mundo, meu ser


Nunca poupa-me de te amar, deixa te amar

Sempre seja comigo, porque eu com você serei

E te amaria assim se te amasse, meu amor

Mas não te amo, você apenas me enche e é tudo pra mim

Quarta-feira, Abril 05, 2006

Adeus

Nada ficou no lugar. Tudo parece desaparecer. Junto com as memórias, a saudade. O vazio interno é imenso. Procuro fôlego pra respirar. Nada encontro, Lágrimas rolam. Sem forças, soluços. Mãos tremulas a discar um número

Alô?

Não, não é verdade. Nada do outro lado da linha
Queira deixar sua mensagem.

Adeus.

Sábado, Abril 01, 2006

Segundos..


Meia noite de ontem,
Zero hora de hoje.
Um segundo separa o que é hoje,
Do que foi ontem.

O que sou agora,
Do que era antes.
Que enorme poder é esse

Escondido nos milésimos de um segundo?

Transforma o sonho de agora,
Que no antes era nada,

No esquecimento do depois.
Mantém a tristeza da meia noite,

Sob o quente sol do meio dia.
Porque não torna o querer do hoje

No ter do amanhã?
Ou ainda o pensar você da meia noite

No sonhar você da zero hora

E ver você do meio dia?

Sob o teu sol não há tristeza.

Só você, eu

E meu coração

Contando segundos.

Feliz.

Coisas essenciais para viver

Esta noite sonhei com um monte de coisas essenciais. Este dia sonhei comigo fazendo estas coisas sem planeja-las e sem quere-las, mas ao mesmo tempo querendo-as. Fico aí sentado na cadeira a escrever sobre o que desconheço e fazendo estas coisas sem saber que faço. Escrever é. E não escrevo para alguém como você leitor apressado, mas sim para suprir todas aquelas coisas essenciais, mas que vem a faltar em minha pobre mesa de madeira velha e roída pela minha própria vida sem esperança, mas que amo assim mesmo.
Coisas essenciais; as necessito mesmo? Quando abri o meu livro, Fernando Pessoa me disse: “Leve, leve, muito leve/Um vento muito leve passa/E vai-se, sempre muito leve. /E eu não sei o que penso/Nem procuro sabê-lo”. Minha vida seria assim se não fosse pelo essencial. Mas ainda sinto que há aquela mínima animação selvagem que me faz viver para conhecer o amanhã. Mas seria eu tão leve? Acredito que sim, não porque nasci acreditando, mas porque quero acreditar; seria tão leve que se passasse pelo meu lado, minha vida, nem eu mesmo a viria. Mas me diga o que disse Pessoa a você quando abriu por esta manhã o livro de sua vida complicada? Ele sempre tem algo a dizer, é só perguntar e você saberá. Estes homens do papel falam e tem tanto a lhe contar que você ficaria assustado sobre o quanto eles te conhecem e te entendem. Mas eu acabo te entendendo também. Perguntar da vida a um papel… Mas na verdade nada se aprende só; seria hipocrisia tentar aprender a viver; viver é assim, tudo te ensina, você nunca vai aprender. Se aprendesse não estaria danado como se encontra, sempre existe aquele algo que atrapalha sua vida. Ninguém é o lustre do sorriso do lábio. Não escrevo palavras para manter-me, escrevo para que elas me ensinem apenas como acabar a próxima hora de vida; se vivesse a escrever todo momento seria eu quase perfeito, não assim, um eu qualquer para mim.
Conte a mim e eu tentarei lhe explicar. Eu lhe conto um tudo e você me diz: vale a pena viver?Aprenda sozinho a lutar sua vida, e no final dela você pode vir e me dizer se valeu.

Quarta-feira, Março 29, 2006

Devaneios Imaginários


O encanto se desencanta.
As horas passam e passando nada acontece.
Pra onde foi o afeto?
Em algum lugar escondido está a passear o acalanto.
A esperança encontra-se batendo papo com a tristeza, aconselhando esse pequeno e poderoso sentimento a enxugar as lágrimas e colocar no rosto um singelo sorriso.
Estranho!
Se a tristeza distribuir sorrisos, onde está a tristeza?
Acordo...
Descubro que ao encanto se desencantar, o pego passeando com alegria que deslumbrada esta e não para de distribuir doces sorrisos.
O afeto se enamorou pelo arco-íris, a esperança o acompanha em todas as horas, esperando mais um momento do encontro sol e chuva.
Tristeza resolve seguir conselhos de dona Esperança, de vez em quando lágrimas rolam de seu rostinho, escorregando no choro, mas não demora para um sorriso tímido aparecer.
Passando por aí, em algum lugar da hora, o minuto muda e ao mudar um instante, tudo muda e nada acontece.
Um nó esta prestes a ser desatado.
E todos nem se tocam que em um instante milhares de coisas acontecem e mesmo assim tudo continua na mesmice dos lugares.


"Só se vê bem com o coração. O essencial é invisível aos olhos."
Extraído do livro O pequeno príncipe

Segunda-feira, Março 27, 2006

Copo de Café..

Um copo de café,
Uma fatia de pão com manteiga,
Um bom dia vida pra despertar.
Olhar para a janela e ver o azul clarinho do céu.
O sol que nasce amarelo vivo cegando os olhos.
Os pássaros que vão voando tranqüilos,
Rumo a onde ninguém sabe.

Vestir a roupa devagar,
Escovar os dentes devagar,
Lavar o rosto devagar.
Olhar no relógio e constatar o óbvio.

Procurar as chaves de casa,
O celular, a bolsa.
Esquecer alguma coisa em cima da mesa.
Alguma coisa importante,
Que estava lá pra não ser esquecida.

Errar o buraco da fechadura,
Uma, duas vezes.
Acertar.
Abrir a porta,
Sentir o mundo entrar por você,
E você entrar pelo mundo.
Descer as escadas correndo.
Tentando lembrar,
Mas ainda esquecendo o que está na mesa.

Abrir a porta da rua,
Aterrissar na calçada, pouso forçado.
Dar partida,
Engatar marcha,
Partir veloz,
Fritando sola de tênis no asfalto.

Olhar os olhos que passam,
Ler neles noites mal dormidas,
Copos de café,
Fatias de pão com manteiga,
Relógios gritando atraso,
Chaves, celulares e bolsas perdidas,
Sonhos perdidos.
Pressa, sempre a pressa,
Alguma coisa muito importante sobre a mesa.
Lá, onde jamais seria esquecida.


São 5:05 da manhã.. Bom dia a todos!!

Quarta-feira, Março 22, 2006

Migalhas...

Espero não ofender ninguém com isso aí. Posso ser clichê, mas não sou de se jogar fora vai...

Entender o ser humano é provavelmente a tarefa mais difícil a que alguém pode se propor. Não digo entender atitudes, ações, não é isso. Me refiro a entender o que vai no íntimo de cada um. Os pensamentos que levam alguém a propor ou agir de uma certa maneira. A fazer coisas que não condizem com aquilo que pregam. O ser humano é o ser mais enigmático do Universo. Fomos nós que tivemos a ousadia de desafiar o Criador nos jardins de Sua própria morada. Somos nós que em nome da liberdade, e é nesse ponto que se encontra a maior injustiça humana, pois é sobre ela, a liberdade, que jogamos a culpa por todas as besteiras que fazemos, insistimos em erros absurdos e muitas vezes infantis.
Como entender um ser que teima em não aprender com as próprias ações? Diferentemente de qualquer outro ser vivo em nosso planeta, somos nós os únicos que vêem lógica e inteligência em repetir velhas ações que, sabemos, desencadearão conseqüências muitas vezes desagradáveis, como se pelo simples prazer de dizer que é para isso que somos livres. Pois eu digo que não. Arrisco dizer que a liberdade não foi idealizada para esse fim. Ela nasceu no desejo de mudar, de não ter limites, ela existe para que possamos encontrar novos caminhos, pensar o novo e fugir do velho. A liberdade é uma migalha de pão na trilha da vida, que nos guia de volta à felicidade perdida.
É nesse ponto que minhas tentativas de entender o pensamento humano se confundem. Por que optar sempre pelo caminho mais difícil? Porque experimentar os resultados de nossos erros em nós mesmos ao invés de espelhar-se no exemplo de alguém? Gostamos de sentir na boca o gosto amargo mas real da derrota. Não gostamos de conselhos. Os pedimos apenas para alimentar nossa ânsia masoquista de saber que havia uma rota alternativa que da próxima vez talvez tomaremos. O orgulho impede que aceitemos que nos digam o que fazer. Orgulho ou burrice? O ser humano é o ser mais burro do Universo.
Me interesso sinceramente por tentar entender. Não me incomodo jamais em perder um pouco do meu tempo nessa árdua tarefa. Faço isso na tentativa de ajudar, de ser útil para alguém num sentido mais amplo, mais completo. Penso que se um dia puder entender ao menos uma migalha do que é, ou melhor, do que pensa o ser humano, vou poder ajudar muita gente a encontrar o verdadeiro sentido da liberdade e, dessa forma, a trilha que os leva de volta à sua felicidade. Quem sabe nesse dia, nesse belo dia, possa encontrar a minha própria trilha, esperando que até lá, nenhum passarinho maldoso coma as migalhas de pão que espalhei pelo caminho.

Abraços a todos!!

"Da luta não me retiro.. Me atiro do alto e que me atirem no peito.. Da luta não me retiro.." (Anitelli)

Sexta-feira, Março 17, 2006

Voar...


Primeiro dia de aula, último ano de faculdade de engenharia e uma vontade danada de mudar de ares...

A janela aberta deixa entrar na sala um vento de início de outono, que vasculha as carteiras da sala fazendo voar papéis e transparências no retroprojetor. De novo. Aula depois do almoço após três meses de férias não é exatamente algo que aprecie muito. Lá na frente o professor parece empolgado com transistores, resistores, reguladores e mais uma série de outras dores. Meus pensamentos ainda não entraram na sala. Estão vagando lá fora, talvez sentados nos bancos do jardim da faculdade, conversando com os amigos que não via a algum tempo. Talvez em casa, ao computador ouvindo músicas novas, escrevendo o novo com as mesmas antigas palavras desbotadas. Talvez ainda mais longe. Em casa. Na minha casa, que guarda o que há de mais vivo no meu coração. Nos amigos que deixei pra trás, mas que estão sempre comigo, escondidos no bolso da camisa, bem junto de onde importa.

Sentado numa carteira encostada na janela minha vontade é de imitar Ramón Sampedro do filme Mar Adentro: Levantar da cadeira, limpar o caminho, pegar uma certa distância e num impulso pular pra fora. Sair voando, flutuando por sobre cabeças cheias de lógica e por vezes vazias de sensibilidade. Ver lá de cima as elevações do Vale do Paraíba, os carros e caminhões na estrada ansiosos em chegar a seus destinos. Chegar à minha cidade e ir direto àqueles que amo, fazer-lhes uma rápida visita. O suficiente para que saibam que mesmo tendo todos os lugares do mundo ao meu alcance, é com eles que quero estar. Nunca devemos perder uma oportunidade mesmo que pequena de demonstrar isso.

Quem me dera talvez voar no tempo par dar uma espiada no que tem lá frente. Uma espiada só não faz mal a ninguém.

O professor me pergunta alguma coisa que me traz de volta pra sala. Nem ouvi qual foi a pergunta, mas a resposta é não, quando deveria ser: “Não sei professor, estou mesmo precisando de um regulador pra me por nos eixos de novo. Pelo menos pra me trazer de volta dos sonhos”.

O vento fresco de início de outono entra pela janela derrubando a transparência no retroprojetor. De novo. Alguém oferece o estojo como peso. Transistores, Resistores, Reguladores, e tantas outras dores...

Aliás uma só: A Saudade.

ps.: Meu Deus é tão bom que nunca me deixa perder as esperanças...

Quarta-feira, Março 15, 2006

Tentando colorir o que é colorido, mas enxergando preto e branco


Acordo dou um salto e corro, abro a porta do banheiro e rapidamente me encontro debaixo do chuveiro observando o nascer do sol pela pequena janela. Meus pensamentos voam para algum lugar do espaço tentando encontrar uma saída para tudo o que me encanta e atormenta. Quando me dou conta, estou atrasada. Enfio a primeira roupa que encontro e lá se vão os pensamentos e a preocupação toma conta do espaço. São seis e quarenta, ônibus lotado, faces tristes outras alegres indo para algum lugar da cidade, uns vão trabalhar, outros estudar sem contar aqueles que saem bem cedinho esperando encontrar um emprego. Quem sabe?

Muitos ali estão em busca dos sonhos, que parece terem se perdido em algum lugar da vida sofrida, deixando marcas por onde passam.

Como queria poder tirar toda a dor e pranto e no lugar enchê-los de alegria e esperança. O meu ponto chega e desço, deixando de lado a companhia desses rostos que tanto me encantam e me preocupam.

Uma mistura de sensações, sentimentos toma o meu dia, a segunda – feira que parecia ser mais um dia normal, não é. A cada lugar que passo, algo deixa de fazer sentido e a vontade de gritar para todo mundo que ainda existe esperança, ela mora bem ao lado, muitas vezes chega atrasada, mas ela não deixa de existir e muito menos de olhar por nós. Cresce e conforme o seu crescimento meu peito parece explodir. Não explode, chego em casa, tudo tranqüilo. Sento na cadeira e olho para a tela do meu computador, pensando incessantemente sobre tudo o que ocorreu nesse dia tão tradicional.

Resolvo deixar tudo de lado. E por um minuto viajo novamente entre meus sonhos. Todos coexistindo, sentindo uma alegria sem fim, aqueles que buscam os sonhos, encontram. Outros que necessitam de um emprego, empregados. Eu que quero gritar, gritando...

As faces já não são mais as mesma, só o que figura nelas são um largo sorriso e isso me satisfaz. Agora posso voltar as minhas tarefas diárias, sinto por um pequeno instante platônico que o meu dever começa a ser feito e por que não um dia realizado?
Agora vem a tarefa mais árdua, arregaçar as mangas e colocar em prática, começando por um sorriso, segurando a mão de uma criança para atravessar a rua e a cada vez indo mais e mais longe, para um dia, ao deitar em minha cama poder refletir e chegar a conclusão, os meus sonhos saíram de dentro do meu travesseiro.

Segunda-feira, Março 13, 2006

O medo do Poeta..

O poeta olha a folha em branco à sua frente e esforça-se em imaginar suas intenções em palavras. Elas são o seu mecanismo de comunicação, seu aparelho celular universal que possui conexão direta com a alma dos seus leitores. Esse vínculo é essencial para que seja ouvido e entendido da maneira que ele deseja ser. No entanto, ele não quer facilitar o trabalho, essa nunca foi a intenção e é por isso que encontrar as palavras corretas é tarefa tão difícil. As palavras devem disfarçar o verdadeiro sentido, a verdadeira intenção, devem carregar seu real significado sem nunca deixá-lo à mostra, devem tramar contra a compreensão para que só leitores realmente especiais conheçam a verdade, que nada mais é que o próprio espírito do poeta.
O poeta teme entregar o ouro antes do tempo. Teme que como num clichê de filmes de ação, a poderosa arma “caia em mãos erradas”. Quando ele escreve, aquilo que diz é direcionado a alguém (ou alguéns) em especial. É como se o poema fosse uma carta aberta que pode ser lida por qualquer um e no entanto entendida apenas por aquele a quem é destinada. É uma mensagem cifrada cuja chave descansa na compreensão de apenas duas pessoas: O remetente e o destinatário.
Noite e dia o poeta passa escrevendo suas cartas cifradas, esperando ansiosamente que alcancem seu destino, e quando isso acontecer, que sua voz possa ser ouvida e entendida pelos ouvidos para os quais elas falam. A solidão dessas noites e dias é sua companhia, sua inspiração. É no solo árido da dor que cultiva as doces palavras de amor que um dia espera ter a coragem de enviar àquela que é a dona de todos os seus pensamentos. Enquanto esse dia não chega, é em sombras que mergulha essas palavras, escrevendo o seu amor quando escreve o mundo, a vida, suas verdades e suas mentiras. Codificando o amor em tudo o que diz, em tudo o que é.
O poeta é um grande covarde. Seu grande medo na verdade é o de não ser compreendido.

Domingo, Março 12, 2006

O menino e eu


Certa vez desceu dos céus um Deus
Não o Deus Criador, mas o Deus Filho
Ele trouxe a paz e o infinito
Trouxe o amor e a Sua glória sagrada

Mas não veio como um Deus onipotente
Veio como algo mais que uma criança
E menos que um adulto qualquer
Era abençoado e belo
Uma criança nem calma nem danada
Era somente normal e normal era
Um bom menino apenas comum

Mas de vez em quando o pegava por aí
Roubando frutas dos pomares vizinhos
Fazendo o gado mugir de espanto
Indo a lugares proibidos e vendo de tudo
Quando o surpreendia ficava assustado
E com sua doce voz me consolava
De meus triunfos tentados e a pouco feitos

Como era tolo eu; mas com Ele ninguém deve
Pois é um Senhor muito grande e bom
Tal como convém a mim se calar diante de tal
Ele é um Deus forte, e eu alguém que relata em papel
Relata algo sem valor e importância, um espelho
Faço refletir o que já existe e invento o impossível
Cabe a mim ser eu e estar dentro de mim sempre
Compor uma vida sob minhas maiores dores
Fazer de minhas fantasias desejos completos
E não falhar novamente quando escrever um final para meu poema

Mas quando o menino me trouxe um broto
Era broto de algo; feijão, milho, alface…
Veio a mim como se eu fosse um Rei sentado em seu trono
Abriu sua pequena e barrenta mãozinha
Do indicador ao mindinho, oh tão frágeis!
Mostrou-me então aquele